Primavera: uma ameaça luminosa a homens sombrios
A esperança nasce de pequenos orifícios, entre raízes secas, que explodem como granadas, num ato de flores rebeldes
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sábado, 20 de setembro de 2025
A esperança nasce de pequenos orifícios, entre raízes secas, que explodem como granadas, num ato de flores rebeldes

A matéria-prima da primavera é a luz. A chegada da estação oferece dias luminosos e o renascer de flores tocadas por uma mudança súbita que afasta as sombras do inverno e a preguiça do outono.
Aqui, na avenida Paraná, de onde espio a primavera chegando a Londrina, desde o início da semana já havia sinais de que a estação mudou.
Isso me convence de que ainda há no mundo alguma poesia que justifique uma crônica de primavera no lugar de uma crítica ácida, merecida, em dias de votações e aberrações no Congresso Nacional.
Não somos de ferro, embora esses dias mereçam uma análise sobre o que pensam aqueles senhores de terno preto, em torno do "queijo" que não se cansam de roer, cada um com seu naco.
Mas voltei-me para a primavera, num ato de quase rebeldia, porque o sol deixa as folhas mais verdes em árvores de brotos novos, despertando entre a seiva e a luz. Tudo na vida é transição.
Veio o sol! Uma alegria flagrante cravada no céu feito de tantas camadas de azul que a gente suspeita que ali mora, realmente, o infinito. E o que é o infinito nos dias graves em que ainda observamos a primavera?
É a esperança que estava escondida até a orquídea, próxima à janela, florescer. Um amarelo delicado saído de uma haste que mal sustenta as flores, às quais empresto um suporte para um cacho de ouro. É assim, com suportes, que muitas vezes sustentamos a esperança nos dias em que o nascimento da flor é mais importante que todas as mazelas.
Vamos ver a flor se abrir, suspensa na luz como a bailarina num salto efêmero que deixa a plateia extasiada, como testemunha de um movimento único.
As flores não se repetem, nem cada movimento de girar o pescoço para ver a luz, outra e outra uma vez, para testemunhar a beleza da estação.
Fico imaginando onde nasceu a flor naquele emaranhado de raízes que pareciam secas, mas formam um berço para o renascimento da orquídea, a cada primavera. O nascimento das flores em temporadas determinadas é pura poesia.
Poderia me dedicar a assuntos graves mas, talvez, a gritaria toque menos um país saturado do que chamar a atenção para a natureza. Uma certa esperança de combater politicamente usando a flor não é ideia nova, elas já enfrentaram até fuzis. Por isso, a flor era o que faltava na manhã de ambições desmedidas e desrespeito repetido que atendem por PECs, a sigla de um pecado nacional cometido por homens de preto.
Mas a estação é de luz e me perco nela. A esperança nasce de pequenos orifícios, entre raízes secas, que explodem como granadas, num ato de flores rebeldes num mundo sombrio que ainda precisa de alguma poesia para que a gente, numa manhã de domingo, acalente a beleza.
Sob as camadas da ira, aponto a doçura.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


