CÉLIA MUSILLI -

Por dentro dos prédios antigos


Recebi o livro de crônicas "De Tudo um Pouco", de Toshio Icizuca, um nissei nascido em Londrina em 1936, que se formou em engenharia elétrica no Mackenzie, em São Paulo, e vive há anos em Piracicaba . O livro, lançado em 2020 pela editora Nova Consciência, traz memórias  importantes para quem gosta de conhecer a história das cidades, a trajetória de sua evolução, os momentos marcantes em que pequenos vilarejos foram se transformando em grandes centros.  Um dos olhares de Icizuca sobre Londrina  traz o início da construção do primeiro arranha-céu da cidade, como se chamavam os edifícios cada vez mais altos que mudariam, definitivamente, a configuração do perfil urbano, primeiro no centro e, depois, em vários bairros.


Uma cena traz o cronista ainda jovem, nos anos 1950, num sítio junto ao córrego Quatí, onde vivia com a família de agricultores, subindo as escadas do local usado para derriçar os grãos de café para ver, à distância, a construção do edifício Autolon, o primeiro da cidade a figurar como um marco da modernidade, ao lado do Teatro Ouro Verde.

 

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. | Divulgação
 


Essa visão talvez tenha inspirado o adolescente a escolher sua profissão futura ao ver o primeiro prédio iluminando a cidade, mas sua paixão pelos edifícios começou mesmo ao visitar São Paulo para um campeonato de beisebol, em 1949, e se deslumbrar com a altura  do edifício Martinelli ou do Banco do Estado. Aos poucos, a grandeza desses prédios também se projetaria em Londrina que se tornaria uma das cidades mais verticais do País.


Ao ler as crônicas de Icizuka, lembrei-me de minha incursão recente por prédios antigos do centro de Londrina. Tenho paixão por esses edifícios, admiro seu espaço interno, as paredes sólidas, as vigas de concreto que desafiam as reformas. Fiz essa incursão para encontrar um apartamento à venda e, para minha surpresa, descobri também corredores, portas e janelas que sofreram a ação do tempo e das mudanças, às vezes sem planejamento.


Visitar os prédios do centro renderia uma reportagem inteira. Há edifícios divididos entre área residencial e salas comerciais, como era comum nos anos 1950 e 1960. Disso resultou uma mistura que faz muitos moradores darem de cara com salas de serviços de motoboys ou de dentistas, o que pode não incomodar, mas denota costumes. O que mais impressiona são os labirintos em que se transformaram algumas construções, abrindo-se em corredores estranhos que serviriam a um cenário de filme. Já o "estrago" pode ser observado em apartamentos às vezes escuros, com janelas "cegas", por causa das construções que subiram ao redor do edifício antigo. Uma lição de vida urbana cairia bem aos engenheiros e arquitetos que só pensam no presente. 


Mas existem ainda edifícios amplos e conservados, com pé direito alto, janelas panorâmicas, pilares revestidos com pastilhas de vidro, banheiros, salas e quartos espaçosos de dar inveja a qualquer construção contemporânea, essas que oferecem "conforto em 48 metros quadrados".  Quem tiver olhos para ver sempre verá. E fico pensando em tudo que o engenheiro Toshio Icizuca poderia ensinar a quem constrói sem pensar no amanhã porque a  cidade só será grande se tiver futuro, não corredores escuros ou escadas sem saída. A arquitetura, acima de tudo, é um retrato da história e da civilização.

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