Às vezes me perguntam por que não falo de política no jornal. É simples, não quero ser lembrada, se um dia o for, como uma cronista da política, tampouco como uma cronista a serviço de algum partido, fazendo o papel de boizinho de presépio ou carneirinho ideológico. Prefiro ser cronista dos costumes, da poesia ou da tragédia do cotidiano, daquelas que usam lupas para observar o que quase ninguém vê. Mas também não fujo da raia.

Na última semana, fatos ligados à política nacional dominaram os noticiários. No mesmo dia em que milhares de pessoas se manifestaram no Brasil em favor da educação e, sobretudo, das universidades públicas, o presidente encenava em Dallas (EUA) uma peça de marketing para receber um título da Câmara de Comércio Brasil – Estados Unidos, “convidando-se”, voluntariamente, para ir também à Fundação Bush, local onde, na verdade, todos os signatários de outros países são recebidos, sem que haja nenhum convite especial.

No mesmo dia, o ministro da Educação era questionado na Câmara sobre os cortes no setor que ele chama de “contingenciamento”. Em nenhum momento eles fizeram as contas para saber quantos milhares de brasileiros se manifestaram nas ruas e, para isso, não precisariam de caixas de bombons nem de regras de três. Era só uma questão de bom-senso para enxergar a vida nacional.

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. | Foto: Marco Jacobsen

No mesmo dia, no noticiário, constatei que depois da sabatina ao ministro, realizada na quarta-feira, os deputados e senadores já se preparavam para a debandada usual na quinta, rumo a seus estados de origem. Como se sabe, é de praxe que os políticos não fiquem em Brasília nos fins de semana. Para isso contam com a cumplicidade de todos para o feriado estendido e passagens aéreas pagas pelo erário público ou, em última instância, pelo nosso dinheiro. E lá vão eles, tratar de política em churrascadas e pescarias de quinta a domingo.

Faço parte de uma categoria profissional na qual muitas vezes não temos domingos nem feriados. Trabalhamos nos fins de semana como os funcionários das delegacias, dos hospitais públicos ou do Corpo de Bombeiros,apagamos por aqui muitos incêndios, sem ganhar nem um terço do que ganham os nobres da casta política.

Foi no jornalismo que aprendi a ter amor pela camisa e admiro quem se entrega à profissão porque gosta do que faz. Esta semana, enquanto os políticos debandavam de Brasília e o presidente debandava do País num momento crítico, eu admirava uma colega de trabalho. É que na quinta-feira publicamos na Folha 2 uma matéria da repórter Katiuscia Mizokami, que trabalha na MultiTV e faz parte do Grupo FOLHA. Ela me enviou uma mensagem dizendo que ficou emocionada por ter publicado um texto no jornal impresso e por isso chorou.

Eu compreendo a Katiuscia. Já chorei em entrevistas, escrevendo matérias ou editando textos. Como daquela vez, há muitos anos, quando tive diante dos olhos o depoimento de um jovem preso por tráfico de drogas que fez músicas e lançou um disco de rap mesmo estando na cadeia. Francelino França, que não está mais entre nós, foi o repórter que me fez chorar daquela vez porque, como já disse, o jornalismo me deu disciplina, mas também me ensinou o amor pelo que faço.

Por essas e outras, não faço questão de escrever sobre política no jornal, mas o faço em páginas da rede social onde tudo é efêmero. Nelas registro minha perplexidade pelos desmandos e pelos engôdos. No jornal dou-me ao direito de falar de costumes, do cotidiano, da poesia que se processa diariamente nos arredores do Bosque, da vida que vejo pelas janelas dos prédios antigos. Às vezes também escrevo sobre gatos, como fizeram William Burroughs e Charles Bukowski que amavam os felinos. Não troco nada pelos miados e pela poesia, a ela devo a honra de não submeter meus textos a ideologias caducas e a personagens cuja história é uma sucessão blefes, a começar pelos fins de semana sempre esticados.

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