Plataformas como o Facebook e X descontrolam mundos e fundos
O exercício de cidadania nas redes tem sido uma cidadania de fantoches curvados à aceitação ou rejeição pública dos likes
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 2025
O exercício de cidadania nas redes tem sido uma cidadania de fantoches curvados à aceitação ou rejeição pública dos likes
Celia Musilli 

Com as novas regras que querem aplicar às redes sociais - um conluio dos donos das big techs, como Mark Zuckerberg, dono da Meta, e Elon Musk, dono do X - penso que nunca o usuário foi tão enganado.
A nova ordem ainda não chegou ao Brasil, mas acompanha a política de Donald Trump nos EUA e ameaça outros países porque Zuckerberg já tacha os tribunais da América Latina como "tribunais secretos de censura."
Zuckerberg é aquele puritano de ocasião que sempre censurou nus artísticos e até o nu indígena ou de protesto em suas redes. Falei muito sobre isso há mais de dez anos juntamente com um grupo que achava essa censura no Facebook um escárnio, por conta disso viramos até notícia nacional.
Agora, tanto Zuckerberg quanto Musk anunciaram que não haverá mais a mediação de abusos verdadeiramente graves nas redes sociais feita pelas próprias plataformas.
Zuckerberg, o puritano, quando questionado em ação do STF em novembro de 2024, afirmou que suas redes eram monitoradas de "forma eficiente". Chegou a declarar que as políticas de moderação da Meta englobavam uma abordagem "coerente e abrangente." Tudo ao contrário do que ele diz no momento.
Hoje, mudando o jogo, ele afirma que não é mais necessária a mediação para controlar excessos ideológicos e mensagens de cunho racista ou excludentes, ficando tudo por conta da comunidade.
Uma posição que desencadeia crises junto aos governos, como aconteceu esta semana quando Nikolas Ferreira se valeu de fake news para criar confusão sobre uma suposta taxação do PIX quando a Receita Federal anunciou a fiscalização sobre as transações acima de 5 mil reais para pessoas físicas e acima de R$ 15 mil para pessoas jurídicas, numa alteração apenas de regras que já existem e valores.
Resumo da ópera: bilionários mimados fazem o que bem entendem em suas big techs, como se já não bastasse produzirmos todo o conteúdo de graça, pelo menos para quem não tem a intenção de monetizar cada ação. E, agora, querem abrir a porteira global para qualquer tipo de desinformação sem controle.
Tenho notado que manifestações que poderiam ser atos concretos contra abusos acabam se limitando à perfumaria das redes sociais, onde assuntos sérios ganham likes e ficam por isso mesmo. Perdemos até a potência do protesto real.
O exercício de cidadania nas redes tem sido uma cidadania de fantoches curvados à aceitação ou rejeição pública dos likes e emojis sem muita força para encarar os problemas que só crescem, com mentes autoritárias, sem que quase ninguém seja punido pelos erros e mentiras disseminadas globalmente.
Com essa reflexão, além de curtir as redes como espaço de conhecimento, criação e coletividade, sobram bem poucos motivos para permanecer nelas. Bastam alguns dias longe das redes para se readquirir uma energia vital gasta com debates inúteis, vaidades e ilusão de poder.
Os donos das grandes plataformas querem pessoas trabalhando de graça sem ter nenhuma responsabilidade sobre a construção coletiva, ética, política, social e cultural. Danem-se as nações e suas demandas. O que interessa é o lucro. E a engrenagem da máquina de produzir lucro somos nós. Eles fornecem o espaço, nós, o principal: o conteúdo, sem o qual não há plataforma.
Há mais perdas que ganhos num mundo idiotizado.


