Pequena história de um morador de rua
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de junho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
No centro da cidade há um morador de rua que faz ponto perto de um supermercado e nunca anda sozinho. Dois cachorros são sua companhia constante, além disso, de vez em quando, ele tem dois franguinhos como fiéis escudeiros. Sempre me intrigou como os frangos não se afastam do dono, observei que ele os alimenta com quirera de milho, o que me fez supor que por isso as aves não se afastam. Mas já vi os frangos soltos, a cerca de dois metros, e eles acabam voltando para aquele que os alimenta. O milho sempre será a senha perfeita para a comunicação entre o homem e a galinha.
Dia desses, quando a temperatura baixou, os cachorros apareceram bem vestidos na rua Senador Souza Naves: sobre o pelo de típicos vira-latas, um 'pijama' de dálmatas, preto e branco, possivelmente doado, aquecia os bichinhos. Com a cena inusitada na cabeça, voltei ao local para entrevistar o morador de rua.
O diálogo foi rápido, o suficiente para saber que ele se chama Vanderlei, nasceu em Bom Sucesso, interior do PR, já foi um trabalhador comum que desistiu de instalar redes de TV a cabo e foi morar na rua. O motivo obscuro da mudança ele não explica, limita-se a dizer que “são coisas da vida”.
Os cachorros de Vanderlei se chamam Lua e Júnior. Já havia reparado que ele os mantém próximos e quando se afastam ele chama: “Vem aqui com o papai”. Portanto, Júnior não é um nome aleatório, é um nome de “filho” que é cachorro. Entre as qualidades dos cães está o fato de protegerem Vanderlei e nunca abandonarem o “pai”.

No centro de Londrina, como em muitas cidades brasileiras, os moradores de rua estão sempre acompanhados de cães que cumprem a sua tarefa ancestral: cuidar do bicho homem. No centro de Londrina, ai de quem se aproximar desses homens e mulheres abandonados à própria sorte. Há sempre um cão em volta deles de dia, há sempre um cão latindo quando seus donos, por algum motivo, estão correndo riscos à noite. É comovente observar esta amizade entre quem nada tem mas divide tudo com seus bichos de estimação.
Os animais, no meu ponto de vista, muitas vezes tem mais “humanidade que a espécie humana. Já vi gatos salvarem filhotes, que nem eram seus, das enxurradas e os trazerem para dentro de casa para os manterem seguros. Já vi cães salvando pessoas e pessoas salvando cães. Já vi músicos tocando para “plateias” de bichos e animais se aproximarem de instrumentos para tentar alguns acordes.
Mas ver Vanderlei com seus animais, com sol ou chuva, é uma das maiores provas que já vi da harmonia bicho/homem num ambiente estressante como uma rua central da cidade, onde buzinas, freadas, gritaria e olhares de aprovação ou reprovação são constantes na vida desses andarilhos urbanos.
Na verdade, há pouco tempo, Vanderlei deixou de dormir nas ruas “para ter sossego”. Ele me disse que “encontrou a paz” num barraco que construiu no conjunto Pindorama, bairro da zona leste de Londrina, onde hoje vive com seus animais. Ele me contou que um dos cachorros, o Júnior, agora fica durante o dia “cuidando dos frangos em casa” para que ninguém os roube, já que teve a infelicidade de ver um de seus franguinhos levados aqui mesmo, no centro da cidade, por um sujeito mal encarado que simplesmente passou e levou uma das aves sem dar explicações.
A partir disso, Júnior virou babá das galinhas e Lua segue a vida diurna com o dono pelas ruas, tendo sempre uma vasilha de água e ração ao seu alcance.
Por uma dessas coincidências inexplicáveis, no momento em que eu entrevistava Vanderlei, aproximou-se um carro de Sabáudia, um desses veículos oficiais de prefeituras, e dele desceu um homem. Tão logo viu Vanderlei , saiu do carro e o abraçou chorando.
Pouco depois Vanderlei me apresentou a ele dizendo: “este é meu irmão mais velho, que mora em São Paulo.” E, virando-se para o irmão, ainda explicou: “ela é do jornal, está aqui me entrevistando.” Como testemunha da cena, chorei junto, depois me afastei para não atrapalhar um encontro que deve ter sido planejado pelos anjos da terra e do céu.
Soube então que Vanderlei não quer voltar para casa, que não quer morar com a família. Mas ainda não voltei ao local em que ele costuma ficar para saber se, afinal, um irmão emocionado o convenceu a voltar para casa levando junto a Lua, o Júnior e as galinhas que formam a “família do Vanderlei” nestes seus anos de rua como mais um transeunte que se desligou do passado, dos amigos e irmãos, por “essas coisas da vida.”


