Impressionante a comoção popular pela morte do cão Orelha, um herói da humildade. O cachorro comunitário que viveu por dez anos na Praia Brava, em Florianópolis, não era um desses cães de pelo escovado, não usava gravatas, não tinha ração especial, não ia à creche, não teve um tutor que guardasse sua carteirinha de vacinas ou lhe desse banho quando a salinidade do mar impregnava seu corpo, dando-lhe uma dureza de cão de rua.

Orelha também não era desses cães treinados que ajudam a polícia, farejam drogas, imobilizam bandidos, procuram, heroicamente, pessoas em escombros.

Ele era um 'outsider', um desses cães que vagam pelas ruas e conhecem cada esquina, cada poste, com a liberdade infantil de quem identifica a hora de brincar como o dia inteiro. E como brincava, rolando na areia ou pegando graciosamente uma bolinha com a boca, corria contra o vento para balançar a parte do corpo que lhe deu identidade: as orelhas, duas "peças" ponteagudas.

Sua beleza de cão humilde se destacava nas fotografias ao pôr-do-sol na Praia Brava, imagens feitas por transeuntes que registraram seu porte de estátua, sereno e concentrado, quando via o dia terminar como mais um dia de cão pobre, sem coleira, sem luxos, mas também sem amarras.

Ele vivia num "condomínio de cães", ali mesmo na praia. Eram três amigos inseparáveis dividindo as refeições doadas pelos moradores do bairro, sem que Orelha, Caramelo e Pretinha jamais tenham se engalfinhado por um osso ou protagonizado brigas de "cachorro grande", eles viviam como irmãos.

Um dia, Caramelo foi adotado por um delegado que, certamente, já tinha conhecimento de que um bando de adolescentes da "classe A" o submetia a grosserias, com tapas e socos, antes de lançá-lo ao mar. Em outro dia, após esta cena patética, Orelha foi submetido a uma tortura maior, quando recebeu pauladas que excederam sua disposição para brincadeiras, marcando seu corpo com ferimentos que um cão não pode suportar. Ele morreu humildemente, como viveu, depois de apanhar e se arrastar para baixo de um carro, onde foi encontrado para tentativas de salvamento em vão.

Depois disso, Pretinha, a cachorrinha idosa e parceira inseparável de Orelha, adoeceu pela morte do amigo, porque animais também se deprimem e sentem as perdas com a sensibilidade quase "humana" que muitos humanos não têm.

Selou-se assim, com separação súbita, o destino de três amigos e, dizem as testemunhas do crime, que depois disso a Praia Brava nunca mais foi a mesma. A casinha humilde de Orelha e as de seus amigos agora recebem flores, mas há um vazio inconsolável.

Esta história passa muitas vezes pela minha cabeça desde que conheci o cão Orelha, pelos jornais, como um herói da humildade. Para escrever sobre ele sequer abri o computador, peguei o celular ao amanhecer e ainda na cama, bem quieta, comecei a descrever sua vidinha.

Só recolhida é possível escrever algumas coisas, como essa fração da existência de Orelha e de outras duas vidas que demandam um mergulho nas emoções como quem mergulha no mar.

mockup