CÉLIA MUSILLI -

Olimpíadas: uma janela para a felicidade


Esta semana, os brasileiros abriram uma janela para a felicidade. No caso, as telas nas quais vemos  nossos atletas dando a volta por cima, por baixo, em saltos, sobre rodas, surfando ondas nas Olimpíadas de Tóquio. Uma brecha de alegria sob um inverno intenso e tristezas sem fim pela pandemia.


A semana começou com a medalha de ouro de Ítalo Ferreira no surf . Ele aproveitou as águas ocasionalmente agitadas do Pacífico, sob a ameaça de um tufão, e conquistou a medalha, saindo do mar com um sorriso de campeão e um agradecimento especial a  Deus consagrado no mantra que vinha repetindo desde os treinos:    "Diz amém que o ouro vem!"   O gesto de guerreiro, com o punho para alto ao sair do mar, evocou os heróis gregos na Odisseia contemporânea dos jogos, relembrando a consagração do lutador Milo de Crotona, vencedor de seis olimpíadas no século VI a.C. que, por causa das vitórias, podia comer 12 quilos de carne e beber 9 litros de vinho de uma vez. 


Nosso herói comemorou de outro modo, nem precisou dos 12 quilos de carne, só da medalha no peito após ter vencido a bateria decisiva disputada com o surfista japonês Kanoa Igarashi, de longe o preferido da torcida e que já havia vencido Gabriel Medina, nosso outro herói.

 

Olimpíadas: uma janela para a felicidade
 

Na memória, ficam as manobras de Ítalo, seus aéreos que dão a impressão de que ele é um peixe voador, espécie rara. Superando a prancha quebrada logo na primeira onda da bateria decisiva - tal e qual as tampas das caixas de isopor que quebravam quando ele tentava surfar na infância -  trouxe para os brasileiros um ouro olímpico. O Brasil tem vários surfistas que tiveram uma infância pobre, o pai de Ítalo era pescador, assim como os pais de Silvana Lima, eles não foram criados com aveia Quaker, mas com farinha de mandioca misturada com cabeça de peixe. Dessa estranha mistura nascem muitos de nossos campeões.


Nem o tufão se formando no Pacífico deteve Ítalo, ao contrário, os ventos ajudaram, foi o tufão contra a "tempestade" brasileira. Tempestade porque a imprensa internacional , há alguns anos, apelidou os surfistas brasileiros de "brazilian storm", batizando uma geração de jovens que estão dando o que falar, a começar por Gabriel Medina, que ficou em quarto lugar nas Olimpíadas.


Mas de onde vêm esses campeões que, a despeito de tantas dificuldades, sobem aos pódios. A exemplo de Ítalo, vêm de infâncias pobres e de um trabalho de superação pelo esporte. A história de Rebecca Andrade, que conquistou a primeira medalha de prata do país na ginástica - ficando atrás apenas da americana Sunisa Lee - é também a da superação da pobreza pelos gestos graciosos nos saltos, barras assimétricas, traves e solo. Ela começou sua vida de atleta em Guarulhos (SP), onde chamava a atenção porque fazia tudo pulando.


De pulo em pulo, chegou às Olimpíadas ao som do "Baile da Favela", sabendo que o funk é capaz de levantar a galera, e acabou levando a medalha de prata como o maior salto que já  deu na vida. Esses exemplos nos arrebatam e emocionam. Vi  Ítalo Ferreira sair das águas para pegar o ouro com lágrimas nos olhos, vi a medalha de prata de Rebecca Andrade como o salto olímpico sobre uma biografia que é a de milhares de meninos e meninas brasileiras  que sonham ser Rebeccas e Ítalos. Que os deuses selem suas vontades, levando em conta a garra inegável que leva pessoas da condição mais humilde à consagração.

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Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina.


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