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Londrina

CÉLIA MUSILLI

m de leitura Atualizado em 16/07/2022, 22:30

O tédio de Juma e Jove e a extinção das onças em 'Pantanal'

Temas centrais da novela como o conflito de terras, a emancipação da mulher, a desigualdade econômica enfraqueceram ao longo dos capítulos

PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de julho de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

Foto: Marco Jacobsen
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A novela 'Pantanal' estreou com o brilho de um clássico da teledramaturgia nacional. Reescrita pelo neto do autor Benedito Ruy Barbosa, o enredo nas mãos de  Bruno Luperi começou com a força de um marruá, mas foi enfraquecendo porque as questões que importavam nos anos 90,  tomaram outro rumo nos meados dos anos 2000 e isso causa um desequilíbrio.

Temas centrais da novela como o conflito de terras, a emancipação da mulher, a desigualdade econômica enfraqueceram ao longo dos capítulos e disso quase não sobra nada, com tudo se resumindo às sacanagens de Tenório. 

O conflito de terras que é a origem da história de Juma perdeu a força depois do perdão da Muda, que chegou ao Pantanal para vingar a morte dos pais. Foi  bonita a reconciliação dela a partir do entendimento de que Juma, como ela, foi vítima das circunstâncias. Mas dá certa pena ver a força de todas aquelas mulheres sertanejas resumir-se a lavar roupas, pôr a mesa e se casar com um peão "do bem".  

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. |  Foto: Marco Jacobsen
 

A própria Juma, que antes "virava onça", tem miado suavemente desde que se apaixonou por Jove. Tirando a teimosia de querer continuar vivendo na tapera, em vez de habitar o teto confortável do sogro, seu futuro está selado, ainda que nos capítulos desta semana ela tenha vacilado em relação ao casamento, ao vestido de noiva e outros valores que parecem não ser exatamente suas escolhas. 

No mais, o autor continua a "encher linguiça", como se dizia de uma novela que ficava de capítulo em capítulo num chove não molha.  De "novo", tem Tadeu tentando seduzir a Zefa numa repetição dos banhos de rio que ele teve com a Guta. A intenção é erotizar os lares brasileiros com cenas de sexo, veladas ou não e, neste quesito, Maria Bruaca (Isabel Teixeira), dá um banho de interpretação.

Se há uma coisa a se elogiar na novela é a atuação dessa atriz que tem o teatro como berço, ela não é só mais um rostinho bonito na televisão. Em cenas felizes ou angustiadas, Bruaca rouba as cenas seduzindo Alcides ou chorando por causa da infidelidade de Tenório. Mas, Maria Bruaca age exatamente como o marido e se vinga apenas traindo. A sua "emancipação" resume-se à infidelidade, seja por vingança ou prazer, enquanto a submissão doméstica continua em momentos em que ainda se deixa levar pelo marido e na aceitação da "outra família", dentro de sua própria casa.

A novela mostra costumes bem comuns em lares brasileiros, embora esses costumes venham pontuados por alguma crítica. Alguma, e que bem mereciam uma atualização. A questão da homofobia, por exemplo, foi atualizada, mas desapareceu da novela com a saída de Zacheu do Pantanal, a expectativa é que ele volte para confrontar os preconceitos de Tadeu e da peonada  Mas diante da bigamia de Tenório, fala-se pouco dos direitos da mulher, da partilha dos bens, da dignidade de uma personagem que não passa mesmo de uma coitada ou uma "bruaca", ainda que cativante.

E vem mais por aí, Zuleica, a outra mulher de Tenório, que também tem direitos (como não?) vai desembarcar no Pantanal com os outros filhos e aí vamos ver se elas vão chamar Tenório às falas ou se ele vai continuar sendo o machão perdoado como tantos outros, em tantas novelas.

Por ora, até mesmo por se tratar de uma novela sertaneja, as mulheres fortes, ainda que tenham impulsos de emancipação, continuam na cozinha ou atrás de casamentos ou relacionamentos como objetivo de vida, isso se estende de Filó a Irma.   Até parece que os valores de Dona Mariana Novaes sobre "casar bem" contaminaram a todas ou nunca foram superados. Vocês percebem como  a arte imita a vida? 

De minha parte, continuo esperando a onça esturrar, mas, pelo visto, ela continua miando!