O sofrimento nos olhos das crianças de Gaza
Durmo e acordo pensando que uma oração é minha única saída, além dos protestos, em meio às guerras que massacram a infância
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 2025
Durmo e acordo pensando que uma oração é minha única saída, além dos protestos, em meio às guerras que massacram a infância
Celia Musilli 

Faz algum tempo que durmo e acordo pensando nas crianças da Faixa Gaza. Não penso nas lideranças nem nos marmanjos de uniformes, armas na mão. Penso mesmo nas crianças que convivem com a guerra em meio aos escombros, entre pais, mães e irmãos mortos nos bombardeios. Brinquedos e sonhos esfacelados.
É delicado falar desse conflito. Israel e Palestina são duas nações importantes na história. Mas faz algum tempo que acordo e durmo pensando nas crianças de Gaza. Alguns vídeos trazem a dor dessas crianças.
Uma delas mostra as bonecas que pertenceram a suas amigas que já morreram, numa escola que não existe mais.
Um menino, de uns quatro anos, fala da fome e da falta de casa. A fome presente na sua pequena barriga, a casa soterrada no seu pequeno passado.
Penso nos animais que eliminam aqueles do seu próprio bando. Os suricatos são considerados os mamíferos que mais matam sua própria espécie, cerca de 19,3 % morrem por esses ataques. Um pequeno serial killer que não tolera seus iguais.
Os primatas - que incluem macacos, gorilas e orangotangos - também matam cerca de 2,3% de sua espécie, segundo as pesquisas. Não por acaso, o homem descende também dos primatas.
Para não nos matarmos a torto e a direito, porque não somos bandos, criamos as leis, na esperança de que a ética prevalecesse. Mas que nada, continuamos matando e elegendo líderes que matam. Tivemos apenas um Mujica, para centenas de Netanyahus.
Mas, muito além da política, tenho pensado nas crianças de Gaza. Na repetição das guerras que renderam poemas nas mãos de Neruda ou de Vinicius de Moraes, que cantou a tristeza das crianças mudas e pálidas, "as rosas de Hiroshima."
É difícil se desviar do ódio e das disputas quando se escreve sobre conflitos entre nações. Sempre condenamos o holocausto, mas também condenamos o genocídio, por isso reparo na tristeza das crianças de Gaza.
Um dos vídeos mais emocionantes mostra um pai palestino, no meio de escombros, coroando a filha como princesa. A menina é puro encantamento, assim como o pai. Eles ignoram a destruição ao redor, a casa desabada, o concreto fragmentado em milhares de pedaços como tantos corpos, para terem um momento de amor e fantasia. Acho que pela primeira vez, nestes tempos, os olhos de uma criança de Gaza brilharam e não foi pelas lágrimas.
Neste ponto, lembrei-me do filme "A Vida é Bela" (1997), de Roberto Benigni, que se passa na Segunda Guerra, na Itália fascista - entre 1939 e 1945. No filme, um pai oferece a seu filho, num campo de concentração, a ilusão que não há guerra, criando um jogo elaborado para entreter a criança.
Na vida real, mais de 80 anos depois da Segunda Guerra, vejo a releitura na cena no pai palestino, coroando sua filha como princesa, e me compadeço de todos os pais que perderam filhos e de filhos que perderam os pais, sem perder a esperança.
Durmo e acordo pensando que uma oração é minha única saída, além dos protestos, num mundo de suricatos e orangotangos.


