Imagem ilustrativa da imagem O retorno do recalcado
| Foto: Marco Jacobsen

“Escravidão foi benéfica para os afrodescendentes.”

(Sérgio Nascimento de Camargo, nomeado presidente da Fundação Palmares e impedido de tomar posse por decisão da Justiça).

“O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”.

(Dante Mantovani, nomeado presidente da Funarte)

“A intocável Fernanda Montenegro faz uma foto para a capa de uma revista esquerdista (N.R: revista Quatro Cinco Um) vestida de bruxa. Na entrevista, ela vilipendia a religião do povo através de falas carregadas de preconceito e ignorância. Fernanda é sórdida e mentirosa.” (Roberto Alvim, secretário da Cultura)

As declarações acima, que parecem saídas de um manual escravagista, de um compêndio medieval ou escritas por algum autor delirante, foram divulgadas na imprensa e ditas por quem compõem, hoje, o staff da cultura nacional. O ministério que virou secretaria, hoje ancorada no Ministério do Turismo - reúne pessoas que se identificam com o que chamam de “cultura conservadora”, mas devido às suas declarações estapafúrdias destoam de qualquer pensamento racional.

A pergunta é: onde estavam “armazenadas” essas pessoas? De que armário saíram para fazer pregações que se aproximam de um messianismo cultural do “bem contra o mal”, afirmando posições tão maniqueístas que a gente às vezes duvida que estejam falando sério?

O País está precisando de um divã coletivo, para ser objeto de análise de suas dores, ressentimentos e neuroses. Com a polarização política, é possível enxergar o espelho no qual esquerda e direita se digladiam e se alimentam mutuamente. Declarações delirantes dão conta que entramos num perigoso buraco do qual não se vê o fundo, mas se enxergam os ressentimentos que motivam atitudes impensadas.

O Brasil, pós 1964 e pós anistia, talvez não tenha se dado conta que as feridas não foram curadas e o que vemos, a partir da opinião daqueles que conclamam a “volta da ditadura” – ou tentam praticá-la nos seus nichos institucionais com ameaças e ressentimentos – é que vivemos o momento de ver o tumor purgar, porque não nos demos conta de que tanta raiva estava armazenada. Emprestando um exemplo de Freud, diria que vivemos “o retorno do recalcado.”

Deveríamos considerar no divã nacional a linguagem através da qual os novos cruzados se manifestam. Em suas falas e textos, se destacam com peculiar “coincidência” expressões como “marxismo cultural”, “extrema-imprensa” e “alta cultura”, um conceito superado na contemporaneidade porque se vale de erudição pedante, colocando a arte popular em relação de inferioridade com aquilo que eles pretendem levar ao público como “belo e verdadeiro”. Conceito também ultrapassado em qualquer pesquisa de arte a partir do dadaísmo, surrealismo e modernismo.

Então volto à pergunta: onde estava armazenada essa gente que chega com manuais de “boas maneiras” para a arte e a cultura, pregando de forma messiânica o que Marcel Duchamp já havia superado, no início dos anos 20, como um dos precursores da “arte conceitual”? Por comparação, o pensamento dessa vanguarda do atraso que levanta a bandeira da “alta cultura” se equipara à dos detratores de Galileu que, no século 16, defendeu que a Terra orbita em torno do Sol e acabou no Tribunal da Inquisição. Afinal, eles também afirmam que a Terra é plana, não é?

Fica a pergunta: o que estamos assistindo é um retorno à Idade Média, a debandada de algum hospício (com todo respeito aos delirantes de fato, muito mais criativos que essa gente preconceituosa) ou uma lavagem cerebral que torna os parâmetros de arte um conceito elitista e seletivo?

Fico com as três opções e ainda desconfio que todos foram incensados com a fumaça do cachimbo que emana da Virgínia (EUA), onde vovô Olavo de Carvalho abençoa os retrógrados. Só a infelicidade justifica tanto ressentimento que transborda, coincidentemente, em posturas e linguagem em comum. Reparem como gritam em uníssono: “marxismo cultural”, “extrema imprensa” e “alta cultura”. Será que pensam que ninguém nota a orquestração?

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