Esta semana, uma fala do presidente da República ecoou nas redes sociais numa daquelas jogadas de marketing que valem mais pelo insólito que pelo conteúdo: “Eu, o Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra!” (sic) - disse como quem dá um soco na mesa de pôquer.

Na verdade, o humor súbito era um disfarce da irritação constante do presidente às perguntas dos repórteres que em Sobradinho (BA) repetiram a questão que tem deixado seus nervos em frangalhos: aquela história dele querer que um de seus filhos seja embaixador do Brasil nos EUA, ainda que o guri não tenha perfil nem formação adequada para a função.

Numa coisa o presidente acertou: sim, ele se parece com Johnny Bravo, personagem de um desenho animado, dos anos 1990, identificado como vaidoso e grosseiro. O acerto é tão grande que só se equivaleria à ministra Damares Alves se comparar, por exemplo, com Maga Patalógica ou o ministro Ricardo Salles aparecer com aquele sorriso amarelo do cãozinho Muttley divertindo-se com as maldades do seu dono.

No meu ponto de vista, há uma estratégia evidente de marketing por trás dessas falas insólitas que aproximam o presidente do Brasil de seu verdadeiro herói: Donald Trump. Ambos continuam se comportando como se estivessem em campanha em discursos depois da posse, para os quais se esperam - no caso brasileiro - compromissos mais nobres como salvar a economia da recessão com falas articuladas com acordos globais que demandariam, por exemplo, cuidado com o meio ambiente para que alianças como as da União Europeia com o Mercosul – tão aproveitadas politicamente – se tornem realidade.

Em vez disso, o presidente Johnny Bravo exibe os músculos e prefere cortar os cabelos a conversar com o chanceler da França num encontro que foi sabotado e que seria vital para o funcionamento da aliança UE/ Mercosul. Afinal, a economia nacional também depende das exportações e o acordo sobre o clima é um dos entraves que no momento fazem o Brasil bater na trave das negociações, enquanto empresários de vários setores clamam por medidas que diminuam as cargas tributárias e façam o país brilhar dentro e fora por seu grande potencial agrícola e de outros setores que podem exorcizar o fantasma de uma recessão que se arrasta com o mesmo desemprego e índices de recuo da indústria, em relação ao ano passado, aqui mesmo no Paraná.

Não será com gracejos, piadas, conflitos e provocações que o Brasil será governado. Ouvir um pouco mais e falar menos talvez seja o remédio para nossa situação política e econômica. Algo assim como ser mais chinês e menos espetaculoso quando se disputa um jogo.

O insólito de toda a situação foi se comparar a um personagem pouco simpático repetindo assim, por esforço próprio, as ironias que permeiam a vida política de Donald Trump que virou personagem constante do desenhista Robert Sikoryak que mistura ações das celebridades das HQs com as falas indigestas do presidente norte-americano. Num dos quadrinhos, por exemplo, Trump aparece confrontando Ligeirinho proferindo as ofensas de praxe: “Quando o México manda sua gente, não são os melhores. Trazem drogas, crimes e estupradores.” Um exemplo de xenofobia que contraria pesquisas que demonstram que os países “desenvolvidos” padecem dos mesmos males quando o assunto é o crime que não se concentra nos redutos dos imigrantes.

Quem pensa que o trabalho dos quadrinistas é fácil, não imagina o quanto eles se alimentam da cultura para serem, mais que populares, inteligentes, coisa que Johnny Bravo definitivamente não é. Para criar personagens, os desenhistas pesquisam, informavam-se, levantam frases, situações e até documentação para não dar bola fora, como ensina Sikoryak.

Seria interessante que antes de se compararem a Johnny Bravo, figuras públicas trocassem a piada pela pesquisa, procurando conhecer melhor não só a cultura pop como a cultura geral porque o Brasil não precisa de 'thread topics', mas de desenvolvimento econômico, não precisa de mais bravatas, mas de competência.

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