O nascimento de Jesus, memória sem rede social
Há uma beleza no momento do nascimento de Jesus que resiste há mais de 2 mil anos, a memória é mais profunda que o flash
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de dezembro de 2025
Há uma beleza no momento do nascimento de Jesus que resiste há mais de 2 mil anos, a memória é mais profunda que o flash

Geralmente, escrevemos crônicas inspiradas por fatos cotidianos, registros dos acontecimentos, notícias, até por isso, eventualmente, podem surgir numa crônica assuntos tão diferentes quanto a crítica à política nacional - para desespero de alguns e até reclamação de alguns - ou a cena de uma criança encantada por um enfeite de Natal.
Esta semana, vi numa loja uma criança fazendo pose em frente a um espelho. Atrás dela, havia uma árvore de Natal que criou uma ilusão de ótica, e ela declarou à mãe: "Olha, agora estou dentro da árvore", como se migrasse para aquele universo de bolinhas coloridas.
Por mais que as festas de fim de ano estejam escancaradamente comercializadas - existe até um "Papai Noel da Coca-Cola" - para muitas pessoas o significado ainda se aprofunda.
Não tenho dúvidas de que se Jesus nascesse hoje, a cena estaria na mesma hora, simultâneamente, nas redes sociais, ainda mais com aquela estrela impressionante marcando o local em Belém. E haveria legendas: "O Menino nasceu, mas não houve trégua de Israel na guerra contra a Palestina." E a trilha sonora seria um barulho de bombas em vez do "Jingle Bells."
Ainda bem que Jesus nasceu há mais de dois mil anos, num tempo duro em que reis cortavam cabeças de crianças, mas não havia foto nem vídeo, apenas a tradição de se contar histórias que se eternizaram no conteúdo bíblico, livro que, junto com a "Odisseia" de Homero, forma uma fortuna da literatura ocidental.
Alegro-me e me entrego à paz dos presépios. Emoção à flor da pele desde a hora em que num local de exposição - sejam as igrejas ou a casa de uma tia - sinto o cheirinho de pinheiro e outros aromas, anunciando que o Natal chegou.
Os presépios expressam a beleza e a delicadeza daquela cena na manjedoura, com o Menino rodeado pelos pais, os reis magos e os animais. A palha certamente não era o berço mais rico, mas era confortável na noite fria em que Jesus chegou para ser carregado nos braços de sua mãe e, depois, pela humanidade.
Então, ignoro o merchandising e as marcas que celebram o comércio de Natal - evocando os presentes dos reis magos, hoje tão encaixados no poder de compra - e penso na beleza de imaginar o nascimento de Jesus com a simplicidade que marcou seus dias na Terra.
Consagro esse banho de sensibilidades à cena da menininha que se vê no espelho e se imagina "dentro da árvore de Natal", como a estrela brilhante, não na ponta do pinheiro, mas no cotidiano que se transforma por uma data bonita.
Independentemente de crença ou religião, há profundidade no momento do nascimento de Jesus, isso resiste como tradição há mais de 2 mil anos e chegou até nós sem redes sociais, apenas magistralmente construído na espiritualidade e na memória coletiva. A memória é muito mais profunda que o flash.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


