O melhor da comida de rua
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sábado, 01 de junho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
. Você conhece um prato chamado ‘jajan’ ou já ouviu falar de ‘chaat’? Possivelmente não, você os conheceria se fosse à Indonésia ou à Índia, onde esses pratos típicos estão entre os preferidos da população.
Para trazer a culinária da Indonésia, Índia e de toda Ásia até nós, a Netflix estreou um série chamada Street Food, literalmente, comida de rua, na qual podemos conhecer o que se vende como quitute na ruas de Xangai, Nova Déli ou Yogiakarta.
Os nomes são tão exóticos quanto os pratos e o diferencial da série é que só trata de comida barata, dessas que todo turista procura e que os habitantes locais têm por hábito comer em mercados ou nas barraquinhas.
A aventura gastronômica é um mergulho não só nos pratos, mas na cultura e na vida de personagens que cozinham há décadas iguarias conhecidas como takoyaki, prato à base de polvo do Japão, ou Com Tam, prato vietnamita feito com arroz quebrado - isso mesmo, quebrado - portanto uma receita econômica que tem a ver com o aproveitamento dos alimentos. O que não é difícil entender num país que passou por conflitos e guerras com uma grande população a ser alimentada e que não pode desperdiçar nada.

Assim a gastronomia não é só um dado cultural, mas histórico, o que torna a viagem proposta pela Netflix muito mais interessante nesta primeira temporada que estreou em abril e aborda a comida dos países asiáticos. A expectativa é que as temporadas se estendam por outros continentes.
Na série também chamam a atenção cozinheiros que parecem saídos dos contos de fadas. Na Indonésia, eles mostram Mbah Lindu, que tem 100 anos de idade e cozinha na rua. Ela serve frangos e ovos, dizem que nunca mudou a receita, que é um verdadeiro sucesso. Em Cingapura, encontraram uma verdadeira “lenda do macarrão”, Master Tang, que tinha 85 anos e morreu em fevereiro, infelizmente sem ver a estreia do programa.
Minha imaginação voou da Ásia até Londrina e fiquei pensando na nossa comida de rua, nada tão exótico quanto caracóis ou polvo cozido. Mas gostoso e bem feito como as pamonhas do Calçadão, o churrasquinho de gato das feiras, o pastel e as vitaminas da lanchonete da rua Sergipe, a costelinha de porco frita do Bar do Jaime no Centro Comercial. Ah! E os sucos da rodoviária, hein?
A série gastronômica mostra além de chefs centenários como sua cultura, os filhos e netos desses cozinheiros que herdaram negócios e os incrementam com pedidos pela internet, por exemplo. Foi assim que a herdeira de um restaurante que serve cabeças de peixe em Taiwan sofisticou o negócio, às vezes até escondido dos pais avessos a mudanças, e transformou uma sopa numa potência no mundo dos negócios.
O que nos alimenta é a cultura tradicional, enlaçada com a contemporânea, na forma de receitas e sabores que passam de pais para filhos. Nas origens há quase sempre histórias de superação de famílias muito pobres que foram ganhar a vida nas ruas e acabaram dando vida a avenidas e becos procurados por turistas de todo mundo. Eles querem experimentar as comidas do Mercado de Gwangjan, em Seul,ou uma exótica sopa de enguias nas Filipinas. E se você torce o nariz para receitas tão diferentes, imagine o que um estrangeiro deve pensar da nossa dobradinha.
De minha parte, espero desdobramentos da série com cenas da comida de rua de Norte a Sul do Brasil. Será fantástico, por exemplo, apresentar aos gringos o acarajé, com aquele cheiro de mar e com um recheio em que cabem até as histórias de Jorge Amado.


