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Crônica para 24 de maio -

O mar, a felicidade e a eternidade



- Terrestre de nascença, gostaria de viver como um desses peixes coloridos


- Tinha uns olhos fundos como navio naufragado.


- A concha é uma casa desocupada.


 - Pegadas na areia são trilhas descartáveis.


- Jesus se inspirou nos cardumes quando multiplicou os peixes.


- O mar é salgado para conservar a vida.


- As ilhas são a solidão dos continentes.


O mar, a felicidade e a eternidade
Marco Jacobsen
 



Perdi as contas de quantas vezes escrevi sobre o mar. Não o conheci muito cedo, mas seu impacto sobre mim é de uma das maravilhas do mundo, não importando  territórios ou fronteiras.

 

 


O mar é o mar. Contido numa palavra curta, ele é uma das maiores referências da natureza. As maiores palavras da língua portuguesa não contém o mar. Paralelepípedos não contêm o mar. E a palavra técnica pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (acreditem, ela existe),com 46 letras, não contém um milésimo de um braço marítimo.




Peixinhos e peixões, caranguejos e polvos, mamíferos como a orca e a morsa, além das baleias e golfinhos, estão todos lá. Além da imensurável poesia.


De Camões a Vinícius de Moraes, quase todos os poetas cantaram o mar. E eu, de infância sequinha, vivida numa pequena cidade do interior do país, quando vi o mar pela primeira vez senti um peixe se mexendo no lugar do coração. Fiquei malemolente, me entreguei como nos casos de amor à primeira vista.


Se me perguntarem em que lugar gostaria de viver, responderia: “Perto do mar”. Sonho antigo e sempre adiado que me leva à expectativa de um dia viver com os pés na areia, sem luxos, só para sentir a brisa marítima, ver o nascer e o pôr do sol fantásticos, aspirar a umidade no dias de chuva, tomar banhos diários de água salgada como se me batizassem eternamente em água benta.


É inenarrável a sensação de ser “batida” pelas ondas, em remansos nas prainhas ou dentro de barcos, sacudida pela força que mete medo para mostrar que somos tão pequenos diante daquela imensidão azul que, quando tranquila, me acalma só de olhar.


Quando chego ao litoral, a primeira visão do mar já me transforma numa yogue. Seu barulho é o mantra da natureza, um acalanto que me parece o dos deuses ressoando o OM.


Terrestre de nascença, gostaria de viver como um desses peixes coloridos das profundezas. Creio que a imensidão do mar, só se compara à imensidão das alturas, das montanhas cujos picos nos levam também a sonhar com asas.


Se querem me ver feliz, me vejam perto do mar, não importa se no continente ou se na solidão da ilha. No mar espaço e tempo se dissolvem porque sua força é líquida, como o ventre da mãe em nossa memória de peixes que se tornaram humanos.


Não à toa, Arthur Rimbaud viu no mar a dissolução do tempo ao constatar num poema:


“Ela foi encontrada!


Quem? A eternidade.


É o mar misturado


Ao sol.”


Não tenho nenhuma dúvida.




* A jornalista está em férias (crônica publicada  em 6 de maio de 2019)





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