No último sábado (22), depois de decretada a prisão preventiva de Jair Bolsonaro por sua tentativa de romper a tornozeleira eletrônica, em menos de 24 horas a notícia da prisão foi eclipsada pela versão de que ele agiu por se encontrar numa condição "delirante."

Na imprensa, observei que a versão do surto foi bastante replicada numa demonstração que parece ceder à tendência das redes sociais, buscar audiência pelo sensacionalismo.

A imprensa tradicional, que se orgulha de ser "um dos pilares da democracia", tem balançado esse pilar à medida em que o noticiário se transforma numa caçada aos likes. A imprensa precisa voltar a ser raiz, em vez de ser "nutella".

Esse fenômeno é notado quando uma versão estapafúrdia toma o lugar de um fato: no caso de Bolsonaro, a manchete da fuga nem esfriou e surgiram aquelas que ajudam a vitimizar o ex-presidente, um homem que se vale de uma "condição de saúde precária" a cada vez que se sente ameaçado.

Nem toda imprensa faz esse papel: colocando a versão sobre o fato. E o fato é que o ex-presidente tentou romper a tornozeleira eletrônica num ato que indica uma tentativa premeditada de fuga. Mas em vez de alguns sites jornalísticos questionarem, em primeira mão, quem teria levado aquele ferro de solda para a casa do ex-presidente, preferiram contornar a situação com um noticiário sobre sua "falha cognitiva."

A impressão era que é muito comum as pessoas terem em casa um ferro de soldar, algo assim tão corriqueiro quanto ter uma gaveta de cuecas. Era como se maçaricos fossem ferramentas comuns na casa de prisioneiros, pelo menos conforme a versão dos fiéis seguidores do ex-presidente que acreditam em tudo, menos que ele tenha alguma culpa no que faz.

E vai longe o tempo em que Jair faz coisas bem estranhas, como campanhas contra a vacinação em plena pandemia de covid, discursos inflamados em favor do golpe de Estado, quando seus generais, até mesmo, tramaram uma operação chamada Punhal Verde-Amarelo, com o objetivo de matar três figuras da República.

Para seus seguidores, nada disso se configura como crime, e perguntam: "O que Bolsonaro fez para ser preso? Coitado!" Essas pessoas desculpam até mesmo as falas de seu filho Eduardo, hoje auto exilado nos EUA, que declarou: "para fechar o STF basta um cabo e um soldado!"

Alegar doença mental quando se faz justiça, é um ato desumano e irresponsável. Que o digam os familiares que têm, realmente, pessoas com esses transtornos em casa. O que se exige é que o mesmo homem que há pouco tempo comemorou o aniversário de 15 anos da filha, demonstrando saúde e vitalidade, não banque o doente quando está preso.

Bolsonaro tem alguns problemas de saúde - eu também tenho, vocês têm - mas não é um "bom velhinho com falhas cognitivas." Deixo uma sugestão para a nova fase de Bolsonaro em prisão preventiva: se ele adoecer gravemente, coloquem o ex-presidente num trio elétrico junto com Malafaia, ele sara rapidinho. E, depois de "curado", prendam de novo.

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