O cristianismo que atravessa a rua
Entre os moradores de rua já encontrei antigos técnicos de empresas de telefonia e ex-vendedores
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de julho de 2019
Entre os moradores de rua já encontrei antigos técnicos de empresas de telefonia e ex-vendedores
Celia Musilli - Grupo Folha 
O Bosque de Londrina tem abrigos para gatos abandonados, animais pelo quais tenho enorme simpatia. Tubulações de concreto, com pouco mais de um metro, servem de abrigo aos bichos e – quem diria – agora também servem aos homens.
No último domingo, depois de uma das madrugadas mais frias do ano, vi um morador de rua sair de um desses abrigos de gatos. Com seu único cobertor nas costas, o homem saiu da tubulação com dificuldade, andando como quem sente dor, depois de passar a noite na casa que lhe sobrou. No mesmo dia, soube que cinco pessoas haviam morrido de frio, em São Paulo e Porto Alegre, sendo que o morto do Rio Grande do Sul era um jornalista desempregado.
Nas minhas conversas com moradores de rua já encontrei antigos técnicos de empresas de telefonia e ex-vendedores,confesso que durante anos não via as pessoas em situação de rua da forma como as enxergo hoje. Morando no centro, vi ao longo do tempo passar um “filme” debaixo dos meus olhos, com pessoas nesta situação aumentando numericamente e constituindo uma sociedade de desvalidos, num verdadeiro apartheid.
É para esta sociedade que a igreja católica de Londrina – e outras igrejas – têm voltado os olhos. Foi nas missas da Catedral, celebradas pelo arcebispo Dom Geremias, padre Rafael ou padre Dirceu, que aprendi a olhar com compaixão dobrada para essa população invisível para muitos que transitam pelo centro.
Foi no último Natal que os enfeites da Catedral chegaram até o Bosque, enquanto nos sermões ouvia-se um apelo em favor dos menos favorecidos tão próximos e tão longe. Os enfeites serviram para chamar a atenção sobre um espaço público abandonado ou, mais propriamente, habitado por uma população abandonada. Neste período, como em todos os outros, a igreja não cuidou apenas das aparências do Bosque, mas fez um chamado à comunidade para acolher em vez de apartar os pobres que dormem ao relento. O trabalho da igreja de Londrina tem sido intenso, sob a liderança de Dom Geremias as pastorais continuam a distribuir cestas básicas e agasalhos, preocupando-se com a saúde e a doença, além do emprego e o desemprego, a moradia ou a falta dela, falando com os que têm menos e apelando aos que têm mais. Torço para que todos ouçam.

Para muita gente, minha opção pela igreja católica deve soar estranha, já ouvi dizerem que “isso não combina com meu perfil”. Digo apenas uma coisa, voltei-me para minhas raízes católicas, para a igreja da minha infância, porque precisei. E “precisar” é um verbo que invariavelmente nos conduz à humildade. Sinto que fiz a opção certa por uma igreja que, como outras, olha para as coisas do céu, mas também olha para as coisas da terra, como nesta ação de chamar a atenção para os “invisíveis,” tão perto e tão longe.
Ao conviver quase sem querer com pessoas em situação de rua, porque moro no centro, diminuí as distâncias conversando com alguns deles, ainda que seja para reclamar do barulho noturno. Neste inverno mais intenso que em outros anos, aos poucos percebi que a população do Bosque se calou. O inverno é diferente do verão porque também silencia as ruas, mas certamente não silencia as consciências. Não seria cristão alguém que não segue as orientações do Cristo, totalmente atento à situação de pobreza. Então, no país em que cinco pessoas já morreram de frio só neste inverno, devemos reconhecer nas palavras daqueles que pedem por eles o ensinamento vivificado, porque a igreja deve estar viva, não morta e alheia aos problemas do mundo.
Foi assim que em vez de um texto de ameaças e julgamentos, pensei num texto de conciliação reconhecendo o valor da igreja de Londrina nestes tempos de baixas temperaturas e sentimentos frios. Este texto transforma-se assim numa carta em consideração àqueles que consideram também como sociedade os que passam frio nas ruas, aqueles que dormem em buracos, aqueles que morrem congelados nas noites silenciadas por um inverno intenso. E se alguém achar piegas meu apelo, respondo que a realidade é piegas, mais que isso, a sociedade é piegas quando se enche de moral cristã sem exercer o cristianismo. E que este inverno de mais desabrigados, cujos números crescem tão perto e tão longe, sirva de lição de casa, porque a compaixão está à nossa espera, é só atravessar a rua em vez de protestar nos edifícios.


