O Ano-Novo e os girassóis: tempo de seguir a luz
O nascimento de um ano inspira a imagem de um girassol que desabrocha para seguir a luz de leste a oeste
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de janeiro de 2026
O nascimento de um ano inspira a imagem de um girassol que desabrocha para seguir a luz de leste a oeste

Já escrevi muitas crônicas sobre o Ano-Novo, palavra que se escreve assim, com hífen, como uma pequena ponte para outro ciclo. São muitas camadas de crônicas para muitos anos em que acumulo palavras como a trilha de uma vida inteira.
Na maioria dos textos percebo que o tempo é um tema constante porque o vejo como um enigma que a humanidade organiza em calendários. Não fossem os calendários, não saberíamos bem a diferença de passado, presente e futuro, veríamos a existência como um moto-contínuo, como ela é, entre o começo e o fim.
O tempo é uma invenção humana, um modo de organização consciente da vida, mas flores e pássaros também cumprem ciclos, até rotinas, sem que tenham um relógio para marcar as horas.
Este ano, ao pensar no tempo, lembrei dos girassóis numa dessas associações livres que a psicanálise preza como um sinal das camadas para a interpretação das pétalas sobre pétalas na rede do inconsciente.
O girassol é a flor que desabrocha para seguir a luz e cumpre seu tempo acompanhando o sol. Talvez por isso, o nascimento de mais um ano tenha inspirado a imagem de um girassol que cumpre um ciclo.
O girassol não segue o sol à toa: quando jovens seguem o sol de leste a oeste, quando velhos fixam-se no leste para aquecer mais rapidamente e atrair polinizadores. Talvez, a função dos mais velhos seja mesmo continuar acreditando na vida, colocando-se de um jeito que atraia polinizadores, dando derradeiramente a oportunidade da transferência do pólen. Tudo para garantir a continuidade das espécies, assim como deveríamos fazer, ao longo dos anos, em consonância com a vida.
Sem a polinização muitas plantas não produziriam frutos e sementes. Sem o girassol, que simbolicamente associo ao Ano-Novo, não existiriam mais sementes. Então, o que associo ao Ano-Novo é a continuidade.
Os pessimistas perguntariam: continuar para quê? Os otimistas diriam que para ver mais um ano neste planeta tão especial que cria plantas heliotrópicas, nome que designa as plantas que seguem a luz solar.
Eu diria que num dia feliz não quero muito mais do que seguir o sol, ver o dia nascer e morrer entre nuvens rosadas que nos dão a sensação de leveza quando, simplesmente, nos entregamos ao tempo de nascer e ao tempo de morrer.
No meio do caminho, ainda dá para saber que o girassol se tornou o símbolo dos diferentes, identificando pessoas com deficiências ocultas ou invisíveis, como aquele vizinho portador de autismo, esquizofrenia, baixa visão ou surdez que pode carregar um cordão no pescoço com pequenos girassóis enfileirados. O cordão de girassóis indica discretamente que essas pessoas precisam de paciência ou ajuda em filas e locais públicos.
Na passagem do ano, a associação da virada do tempo com o girassol me indica, pessoalmente, que há muito a aprender apesar dos anos acumulados como pétalas numa explosão de cores e amores essenciais.
Feliz Ano-Novo, entre os girassóis de cada um, em seu jardim!


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


