CÉLIA MUSILLI -

O admirável mundo novo


O livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, tem uma trama que se encaixa cada vez mais na realidade contemporânea. Admirável é perceber como o autor imaginou invenções que soam como profecias, sob a perspectiva de ter adiantado, em décadas, situações só possíveis hoje.


Os paraísos artificiais do sociedade capitalista lembram demais as relações propostas por Huxley. A começar pela  fertilização in vitro - já que no universo do livro o sexo era praticado só por prazer, mas não para reprodução feita exclusivamente em laboratórios - até  a manipulação genética de embriões humanos, que hoje já é feita por pesquisadores na tentativa não apenas de eliminar defeitos genéticos para evitar doenças, o que seria um benefício, mas sob a perspectiva questionável de criar seres humanos nos quais se ressaltariam algumas características para que sejam absorvidos que em grupos sociais que interessam a alguns governos. O risco é se eliminar algumas características "problemáticas", na verdade presentes num mundo diverso e onde há lugar para a individualidade, em detrimento de um padrão que "sirva" a ideologias.




No livro de Huxley, o personagem Bernard Marx é um ponto fora da curva, o  indivíduo rebelde que não se afina à proposta de sociedade artificial e projetada. Ele se encontra com Linda, que foi banida de uma sociedade futurista , na qual - vejam só - gravidez é proibida e Linda tem um filho que é excluído junto com ela chamado Selvagem. A amizade de Bernardo Marx com Linda e seu filho com que ele também seja malvisto como um rebelde. E, neste ponto, a gravidez de Linda me leva a pensar na censura dos que praticam os "bons costumes" que pode ser o moralismo diante de uma gravidez indesejada, mesmo nos dias de hoje, e a censura à gravidez natural, como no caso do livro. 

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. | Marco Jacobsen
 

Pensei sobre tudo isso, num arco que vai da ficção à realidade, quando soube, esta semana, que um novo padrão de live está se estabelecendo na internet. Não se tratam de artistas cantando e dançando, nem de uma digital influencer fazendo caras e bocas para  que todos vejam na telinha como ela é sexy e bonita. A beleza, enquanto espetáculo,chega a ser coisa antiquada, de tão degastada está a imagem, sobretudo feminina, neste tempos em que tudo é para ser visto e mostrado.


Mas o novo modismo nas lives, como se verá numa matéria nesta edição, é as pessoas comuns serem filmadas dormindo ou estudando. Acredito que a tendência surgiu na pandemia, quando o isolamento traz as câmeras mais para dentro de nossas casas numa captação cada vez mais invasiva de nossos hábitos. Se o canal que traz pessoas estudando 12 horas por dia pode ser motivador para milhares de estudantes isolados, que ali compartilham experiências, os vídeos de um sujeito dormindo, em casa ou no telhado, indica mais que a exposição da privacidade ou um show insólito, talvez a necessidade de mostrarmos coisas simples e naturais  cada vez mais em falta no mundo. Pegando carona nas ideias de  Huxley, talvez um dia os hábitos de dormir, beber água ou usar o banheiro se transformem em coisas raras que precisam ser filmadas porque estão em extinção.




Um aplicativo contemporâneo, por exemplo, avisa seu usuário quando ele precisa beber água, o que a longo prazo pode encurtar o desejo natural de nosso corpo pelo líquido mais precioso do mundo e essencial à vida. Em última instância, talvez um dia vamos precisar receber avisos eletrônicos para viver.

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