Noites de lua, lobisomens e gatos
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de junho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
Esta semana, uma lua esplendorosa iluminou as noites. Observadora, notei que no início do inverno ela parecia grande demais no céu claro, sem nuvens, noite fria e propícia a assombrações. Não que eu acredite na existência de lobisomens mas, pelo sim pelo não, também não desdenho das possibilidades da lua projetar sombras em nossa mente, além do clarão.
Fingindo que nem tinha notado sua presença ali pela meia-noite, fui dormir no horário de sempre, depois de zapear inutilmente os canais de TV e sem nenhuma vontade de assistir a uma nova série sobrenatural na Netflix. Não sei o motivo de tantas séries abordarem personagens estranhos, mistérios da mente, projeções da vida futura com todo mundo linkado em algum chip que nos transformaria em alienígenas no próximo século, no qual vamos nos ajoelhar de vez ao deus computador.
A soma de tudo isso, mais o volume de ficção que já absorvi em filmes e livros, surgiram na minha cabeça naquela noite e antevi a insônia, com a lua na janela, antes mesmo que ela começasse.
Às 2 horas ainda não tinha dormido. Mas achei que ainda era cedo para imaginar que a noite seria daquelas em que nos sentimos como um bife à milanesa, fritando de um lado e de outro na cama. Às 3, ainda estava sem sono e mal humorada, enquanto meus gatos, Grafite e Havana, ensaiavam no quarto uma rumba que duraria praticamente a noite inteira. Com a lua escancarada, eles se sentiam como personagens da Disney em data de festa na floresta. Pulavam de um lado para outro, se dependuravam nas cortinas, um encontrava algum sapato para se enfiar , enquanto o outro pulava em cima do suposto “monstro” embolado em meias e cadarços.

Os bichanos não deram trégua nem quando os empurrei para fora do quarto. Havana é especialista em arranhar as portas, além de miar como se estivesse no cio, chamando Grafite, o gato macho, para mais uma balada. Ele corresponde como um Romeu apaixonado.
Perdi a paciência quando os dois, num ato combinado, encontraram no chão uma tampinha de garrafa para atirá-la contra a porta fechada ou arrastá-la como fantasmas arrastam ferros pelos corredores. As assombrações felinas são pródigas em truques que superam a perturbação de qualquer lobisomem em noite de lua cheia.
Não bastasse tudo, em noites demasiadamente claras, os transeuntes que vivem a boêmia no centro de Londrina também capricham nos gritos e gargalhadas insanas, meio assustadoras, porque não se sabe se beberam demais ou foram tomados por algum espírito. Francamente, acredito que estejam possuídos pelas duas coisas. Mas que ninguém me ouça, porque podem me julgar supersticiosa ou como uma dessas personagens atormentadas dos filmes que começam com uivos e musiquinhas sinistras.
Ali pelas 4 horas, adormeci graças ao remédio que só tomo em último caso, com os gatos já acomodados aos meus pés depois de terem dançado a rumba e também um tango, entre a alta voltagem dos corpos elétricos e o romantismo meloso que ataca os felinos em noites de lua.
Acordei às 7 com dores no corpo, um torcicolo insistente de tanto tentar relaxar o pescoço no travesseiro e ser sobressaltada por batucadas de gatos e risadas insanas que vinham da avenida central.
Então relatei essa experiência resumida numa rede social para colher impressões. Para minha surpresa, a maioria acha essa luz a oitava maravilha da Terra, alguns poucos consideram que a lua cheia é mesmo perturbadora, provocando agitação em pessoas suscetíveis. Inspirados em filmes românticos e livros sobre “o par perfeito”, muitos entoaram loas à lua, enquanto eu jurava colocar uma cortina mais grossa no lugar daquela leveza dos palitinhos de madeira que se enrolam e se soltam como nas casas japonesas.
Para uma noite punk preciso de uma decoração punk, escura, metálica, fechada. Mas também não vou me sentir bem como se dormisse num sarcófago. Essa “proteção” me lembraria os vampiros, então é melhor tentar relaxar na próxima lua cheia e começar a uivar, antes da insônia, para assustar gatos e bêbados. Suponho que quem enlouquece primeiro leve uma sinistra vantagem, transformando-se na causa do assombro em vez de ser vítima dele. E já comecei a rir bem alto, enquanto chuto tampinhas de garrafas como se arrastasse correntes.


