Ney Latorraca: um brilho que não se apaga
Nos anos 90, encontrei o ator para uma entrevista à meia-luz, num clima que remetia ao mistério de alguns de seus papéis
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 2024
Nos anos 90, encontrei o ator para uma entrevista à meia-luz, num clima que remetia ao mistério de alguns de seus papéis
Celia Musilli 

Na quinta-feira (26), um dia depois do Natal, uma notícia triste tomou conta da imprensa e das pessoas que não perdem uma estreia de novela. Abalou também quem curte teatro e cinema, afinal, o Brasil perdeu um artista múltiplo: Ney Latorraca se foi, aos 80 anos.
Quem passou os anos 70, 80 e 90 grudado na telinha, antes do streaming e da internet mudarem os hábitos dos que hoje se perguntam "pra que tela eu vou?", as novelas eram o grande momento de descontração nas casas brasileiras. E Latorraca estava sempre lá, nos fazendo companhia no sofá, em papéis inesquecíveis.
Espevitado, desinibido e talentoso, Latorraca fez grandes personagens no teatro, na TV e no cinema. Do playboy Felipe na novela "Estúpido Cupido" (1976) na Globo, à presença marcante em programas como TV Pirata, ele foi um ator que marcou sua geração.
Mas seu grande território foi o teatro.
Encontrei Latorraca pessoalmente em Londrina, quando ele veio com Marco Nanini apresentar um de seus maiores sucessos no palco: "O Mistério de Irma Vap", espetáculo que ficou onze anos em cartaz, assistido por plateias do Brasil inteiro.
No Teatro Ouro Verde, vi Latorraca e Marco Nanini trocarem de personagens e figurinos numa velocidade estonteante, saí do teatro certa de que era esse o maior mistério de Irma Vap: saber como aqueles atores conseguiam entrar e sair de personagens masculinos e femininos com aquela rapidez, em questão de segundos.
Após a sessão, saí direto para a redação da FOLHA, com fervor quase religioso de foca, como se chamam, ainda, os repórteres estreantes. Na verdade, baixou em mim naquele dia o espírito da "foca-raiz" e não larguei o texto até terminá-lo perto da meia-noite.
Naquele tempo, sem os sites jornalísticos, as matérias só iam para o jornal impresso depois da edição no dia seguinte. Mas deixei o texto pronto na antevéspera da publicação de tão eufórica que voltei do teatro, com as ideias sacudindo a cabeça como quem pega um avião para desembarcar rapidamente.
Era o início dos anos 1990. E fui designada tb para entrevistar Ney Latorraca, além de escrever sobre o espetáculo. Encontrei o ator no apartamento de um amigo dele em Londrina, professor universitário, e meu amigo até hoje.
Ainda assombrada por sua interpretação de Vlad, o Conde Vladimir Polanski, da novela "Vamp" (1991), da Globo, entrevistei Latorraca na sala, à meia-luz, num clima que remetia ao mistério que cercou alguns seus de papéis no teatro e na TV, sem nunca perder o humor.
Ele era um cara acessível, elegante como um vampiro, generoso a ponto de não apressar a repórter para terminar logo a entrevista. Assim foi comigo e deve ter sido com outros que tiveram a grande chance de entrevistar um ator completo.
Afilhado de batismo do (grande) Grande Otelo, e tendo como madrinha no teatro a inesquecível Marília Pêra, Latorraca se foi mas nunca vai perder o brilho, como um desses cometas que passam e deixam o rastro com a marca indelével dos mistérios, na terra e no céu.


