Tenho me dedicado a livros escritos por mulheres. Há uma diversidade de títulos que só cresce trazendo um universo que trata da relação com a vida sob uma ótica diferente daquela macetada pelos homens.

Não se trata de um fenômeno novo, as mulheres estão inseridas na literatura há muito tempo e não faltam nomes na lista de grandes autoras, mas é certo que o maior espaço sempre foi ocupado por homens, não só na literatura, mas em todos os segmentos da criação, ficando às mulheres um espaço condescendente de visibilidade.

Tenho lido obras que vêm de vários países, desde os livros da sul-coreana Han Kang até a espanhola Rosa Montero, elas se somam à minha predileção antiga por Clarice Lispector ou Virginia Woolf revelando um mundo que recebe o olhar enviesado das mulheres que criam a partir do que vivem, observam, transformam em literatura, dando valor a detalhes que revelam o valor das pequenas coisas. Um enfileirar de linhas e miçangas na agulha, como declarei num texto, que formam um artesanato de palavras escolhidas e enredos livres em relação ao corpo, à sexualidade e ao amor, com toques de surrealidade feminina.

Han Kang é autora de "A Vegetariana" e "Despedidas Impossíveis" que, entre outros livros, lhe deram um Prêmio Nobel em 2024 pelo conjunto da obra. "A Vegetariana" parte de um enredo doméstico para ampliar a visão sobre o corpo feminino, da magreza à inanição, do trauma ao sexo inocente, das camadas da pele à alma de uma mulher em suas escolhas incompreendidas.

A cobrança aparece em "A Vegetariana" como o costume secular que pesa sobre as mulheres, a cobrança do pai, do marido, da própria irmã num rasgo que invade as escolhas de Young-hye, identificada por uma mancha mongólica que determina seu destino como um sinal da diferença que se transforma em indiferença.

O enredo permeia uma supra realidade das conexões eróticas e afetivas não como um dádiva, mas como uma dor. Uma síntese da dor feminina que, quando é reprimida, sai como areia pelos vãos dos dedos.

Rosa Montero, que já citei na semana passada, emite a potência solar da Espanha. Não poupa críticas ao explicar seu próprio processo de criação e dispara contra autores homens em "A Louca da Casa", não porque são homens, mas para revelar algumas verdades sobre ícones como Gabriel García Márquez ou Goethe.

Não se trata de uma crítica às obras destes gigantes, mas às suas pequenezas humanas em situações que fogem ao senso comum.

As autoras contemporâneas têm um jeito próprio de disparar contra o machismo, num jogo de revelações - ainda que à meia-luz, como em "A Vegetariana" - ou no discurso contundente de uma quase autobiografia como "A Louca da Casa", no qual Rosa Montero também não poupa a si mesma.

Tratam-se de críticas sutis trabalhadas em teias literárias que cintilam de repente ou críticas ácidas que apontam o que está na cara mas ninguém quer ver. Hoje, as mulheres ocupam um espaço cada vez mais importante na literatura, disparando linhas e agulhas com a mesma intensidade.

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