Moradores de rua S/A
No cotidiano vejo a movimentação de uma sociedade anônima
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de abril de 2019
No cotidiano vejo a movimentação de uma sociedade anônima
Celia Musilli - Grupo Folha 
Ao contrário do S/A das razões sociais, a razão social dos moradores de rua não se refere a nenhum mercado de ações. Eles sofrem a influência direta das grandes desigualdades e formam um contingente de sem tetos.
Do sexto andar do meu apartamento, num edifício central da cidade, observo as comunidades que se formam no Bosque e, quando ando nas imediações, vejo dezenas de desvalidos na Concha Acústica e nas marquises de prédios históricos. Recentemente, ações sociais da prefeitura tiraram alguns da sua vida nômade, que os fazem mudar de lugar no mesmo quadrilátero central.
Ao longo do tempo, acompanhei algumas de suas experiências dia e noite. Tenho uma coleção de histórias que despertam em mim as mais diferentes emoções: do riso ao choro, da raiva à ternura.
Nas madrugadas, ouvi a algazarra daqueles que vivem à noite ou a atravessam entre brigas e brincadeiras, xingamentos e cantorias. Faz tempo que tenho uma desafinada orquestra humana sob a minha janela, com seus humores concorrendo com os dos malucos 'bem nascidos' que freiam carros e simulam cavalos de pau nos principais corredores da cidade.
A rotina dos moradores de rua incluiu, durante meses, a assistência social de igrejas que servem sermão com pão. Nada contra a assistência e a caridade, ao contrário, mas em algumas circunstâncias parece uma armadilha para cativar fiéis com piqueniques, ao cair da noite, sem que se tenha depois qualquer preocupação com o lixo deixado sob os bancos da Concha ou do Bosque. Mas isso não é problema exclusivo dos excluídos.
Presenciando tudo isso, desenvolvi ternura por eles, 'noiados' e marginalizados, mas não exatamente maus. Eles parecem pertencer a uma comunidade libertária: alguns não saem das ruas por falta de oportunidades, outros parecem gostar da vida anárquica e sem regras, na qual um dos maiores trunfos é trocar o dia pela noite.
A partir dos hábitos noturnos dos moradores de rua, a quem vejo como meus vizinhos do “andar debaixo”, tive experiências hilárias. Em noites insones cheguei a ir para a janela pedir que parassem com o barulho. Às vezes recebi de volta um “boa noite”, estabelecendo-se entre mim e eles uma sintonia. Mais engraçado foi perceber que reconheciam minha voz e, numa tarde em que passei conversando alto pela Concha Acústica, enquanto eles dormiam, um deles repetiu as palavras com que eu os repreendo à noite: “Fala baixo que eu quero dormir.” Eu ri.

Minha “vizinhança” arranja seus trapos ao anoitecer e os recolhe de manhã: papelões, cobertas e mochilas surradas. Ao acordar, sinto compaixão pelos maus tratos. Imagino o quanto deve ser duro dormir em calçadas úmidas que não podem ser impermeabilizadas por nenhum colchão.
Mas eles têm hábitos de higiene, de manhã usam e emprestam sabonetes enquanto tomam banho na torneira do Bosque. Alguns cantam enquanto se lavam, outros esfregam a própria roupa no corpo aproveitando a torneira também como tanque.
Ultimamente, as ações sociais da prefeitura os têm impedido de ficar em seus dormitórios à luz da lua. Na quinta de madrugada, guardas retiraram alguns remanescentes do Bosque, vi toda a ação que foi enérgica, mas não violenta. Os moradores de rua têm animais de estimação que os defendem de intrusos e da polícia. Os animais latiram alto, enquanto os guardas adentravam o Bosque.
Depois de um tempo saíram de lá discutindo com dois andarilhos que pegaram suas coisas e saíram para mais uma noite sem rumo. Não sei para onde foram aqueles dois homens abandonados à própria sorte. Mas respirei aliviada quando um dos guardas afagou os cachorros que continuavam latindo. Vi no agrado um sinal de humanidade. Em qualquer situação, sempre vou preferir a ternura à violência.
O Bosque amanheceu sem seus habitantes noturnos que foram embora sem banho. Eles fazem parte de uma estranha S/A ou, literalmente, uma sociedade anônima.


