Seu início é em 21 de junho, mas o sr. Inverno não é tão obediente. Na terça e quarta-feira, na região de Londrina, ainda estava calor, desses que fazem a gente se arrepender de levar o edredom para a cama. Na verdade, o Inverno é um saltimbanco, atrasa e adianta, engana quando traz rajadas de frio em abril ou ainda governa em setembro.

Só na última quinta-feira (23) eu o vi cara a cara. Ao me levantar, bem cedo, ainda estava escuro. Na verdade, o prenúncio da escuridão já tem se revelado há algumas semanas: às 18 horas já anoiteceu, não me sinto muito bem com dias mortos antes das 19 horas. Mas o Inverno é assim, um pregador de peças, não corre atrás dos relógios, quando quer fechar a cara amanhece no escuro e anoitece antes da hora.

Mas tenho algumas simpatias por este senhor sisudo. Em dias típicos, é gostoso chegar em casa e se enrolar na manta, tomar a sopa, além de outros confortos que deixam o cafezinho mais gostoso, os bolos tenros, a manteiga derretendo no pão aquecido. Os banhos quentes são mais demorados, assim como pular da cama de manhã exige um esforço extra, mas depois de banho tomado, roupa vestida e botas para “domar” o dia, o sr. Inverno chega a ser uma pessoa agradável, dessas que nos fazem distribuir um “bom dia!” Mas não me digam isso antes da hora, nem façam barulho além do canto do galo (onde existem galos) às 5 da manhã.

O bom do frio é perceber que até os malucos se recolhem cedo, há menos barulhos de motos e freadas nervosas nas avenidas de madrugada. O calor excita e os malucos passam mais tempo acordados quando o calorão ultrapassa os 30 graus. Afinal, quem não fica?

.
. | Foto: Marco Jacobsen

Mas chegou a estação do silêncio, do olhar pela vidraça embaçada e do frio na ponta do nariz. Chegou a estação das meias finas e grossas, com algum luxo, os chapéus que uso porque acho lúdicos. O inverno é também a estação da fantasia, dos cachecóis e casacões, das golas fechadas e dos gorros, das echarpes por puro charme. Ninguém aguenta o friozinho no pescoço, teimando entrar no ouvido como aquele pagodinho chato.

Na cozinha é hora de festejar as massas, do espaguete simples ao pratos com mistura de queijos. Ah! E o vinho é bom, tão bom que atravessou milênios nos copos de quem brindou a vida, como os italianos da minha família que até na sopa derramavam a bebida que os deuses criaram para o aquecimento. O vinho também serve de remédio: da asma à dor de cotovelo.

Que Baco salve as parreiras pela eternidade, transformando-as em tintos secos. E que o vinho do Porto também encha os cálices atravessando oceanos, assim como o cabernet desce as serras gaúchas ou atravessa fronteiras com a Argentina e o Chile.

O sr. Inverno também estimula a comer chocolates. Deus nos conceda as barrinhas com cacau e laranja, os bombons crocantes, as trufas artesanais e, por graça extra, nos traga um chocolate belga daqueles que nos levam direto ao paraíso.

Mas não deixo de me comover com as agruras de quem não tem nada disso. Aqueles que passam a noite na rua, enrolados em cobertores doados e aquecidos por animais como bebês que nascem nas manjedouras. A eles resta o frio, a gripe, mas também o céu estrelado, embora a paisagem seja tão triste para os transeuntes noturnos, passageiros da vida difícil e do trem das derrotas. Que não lhes falte a comida e alguma alegria nas madrugadas em que se aquecem num coro de desvalidos que, apesar de tudo, celebram o inverno a seu modo, ainda que sejam mais felizes no verão quando as praças absorvem o sol diurno e se transformam em lajes aquecidas, mas ainda tristes.

O Inverno anunciado para o dia 21, apareceu no dia 23, quando choveu na região, e os termômetros caíram para 15 graus, com previsão de 7 e 8 graus para as mínimas de sábado e domingo.

Que nesta manhã, a gente possa ver o frio pela vidraça e se arrepie como um gato medroso. A beleza está na alternância das estações e das situações. Uns dias mais tristes para que outros sejam felizes, como a primavera que, neste momento, está dormindo enrolada em sementes, bulbos e promessas de flores.

mockup