Se fosse para a imprensa noticiar com o mesmo destaque o bom e o mau tempo, na última quinta-feira a manchete seria: "O sol volta a brilhar!"

Depois dos 404 raios registrados em Londrina na segunda-feira, das casas, árvores e granjas destruídas em Apucarana, senti não apenas alívio, mas alegria de criança ao ver o sol quando abri a janela. Era a mesma sensação de quando vai dar piscina no sábado, passeio no Igapó no domingo, vestido saindo do armário, sandália nos pés, sorvete na geladeira, boteco sem vendaval e sem goteira. Mas é preciso frear a empolgação.

As previsões meteorológicas ainda insistem em dias nublados, chuvas volumosas, ventos de 70, 100 e até 150 km. E Deus nos livre daqueles tornados que são visitas frequentes no Sul, apavorando cidades também no Paraná.

Tudo isso é colocado na conta de um El Niño histórico, no aquecimento recorde das águas do Pacífico que chega a quase 3 graus acima da média para o período, e a humanidade, senhoras e senhoras, tem tudo a ver com isso.

Não haveria um El Niño tão poderoso se não houvesse um aquecimento estúpido no planeta.

Mas os negacionistas não acham "nada demais" em baforar combustível fóssil nas avenidas por décadas a fio, assim como a fumaça das fábricas bater na camada de ozônio até perfurar, além de um mundo que não vive sem ar-condicionado na sala de visitas e sem aerossol no sovaco.

Somem tudo isso e vão ter a conta do aquecimento global, a fatura que vem na forma de tempestades, transbordamentos de rios, alagamentos, ventanias destrutivas, tornados que parecem coisa de filme, mas são a mais pura realidade, sem filtros para o Instagram.

A tempestade é instagramável, mas é um post triste.

Quem sabe, se a gente se organizar direitinho, ainda haja tempo de frear o combustível fóssil, a poluição da indústria, o ar-condicionado no talo, o aerossol no sovaco, tudo substituído por fontes energéticas e produtos mais razoáveis. Disso nasceria um Novo Mundo sem geleiras derretidas, sem alagamentos, sem casas voando, sem famílias e rebanhos mortos.

No Novo Mundo retomariamos as temperaturas suaves como um piquenique no sítio, um passeio no pomar, um pôr do sol na praia, uma noite de céu estrelado, uma colheita na horta, o filho embalado no berço seguro, ouvindo a chuva.

Quem diria que o Novo Mundo dependeria de coisas tão simples, tão corriqueiras, de um valor que só podemos redimensionar quando imaginamos que a manchete do dia poderia ser: " Hoje é dia sol", na primavera de 2026.

mockup