Londrina em pé pela arte
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sábado, 24 de agosto de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
Os festivais têm a função de criar um grande intercâmbio de cultura, além de uma atmosfera alegre que pode ser conferida nestes tempos de Filo – Festival Internacional de Londrina - assim como no período do Festival de Música, para citar apenas dois eventos consolidados e com décadas de história na cidade.
Só esta semana, apresentaram-se em Londrina grupos do sul e do nordeste do país, além de ocorrer o intercâmbio Brasil/França para pesquisa de novas dramaturgias. Isso tudo e mais a “prata da casa”, grupos locais de teatro que também têm espaço no Filo. E vem mais por aí, os 'hermanos' argentinos, do grupo Humor Negro, desembarcam na cidade nesta segunda-feira (26) e não será apenas para dançar um tango.
Atrás deste ganho inegável de intercambiar cultura, há um aspecto dos festivais que está entre os que mais me emocionam: o público. Quase sempre choro quando a plateia se levanta para aplaudir,um choro que já atravessa no mínimo três décadas. É um choro de alegria, quase infantil, como o das crianças vendo a roda gigante, algumas enormes, brilhando como a estrela da festa.
Foram muitos Filos na rua ou dentro do teatro, vendo as trupes começando ou acabando as apresentações no Calçadão de Londrina. Foram muitas vezes vendo o teatro de Antunes Filho, João das Neves, Zé Celso Martinez Corrêa, Grace Passô, Antonio Araujo, Eugenio Barba, Roberto Bacci e até Kazuo Ohno – ufa, este nome ainda dança no Ouro Verde como um acontecimento.

E chega 2019, ano de resgatar o Filo e seu aniversário de 50 anos, em 2018, que não aconteceu, como se a cultura pudesse morrer sem tiros, mas à míngua. Há quem culpe os artistas ou pendurem em suas fichas suspeitas de corrupção, comprometendo toda a classe. Há quem culpe os gestores que continuam tirando leite de pedra para manter viva a chama com ingressos a preços populares (R$ 20 e 10 reais para todos terem acesso à cultura), participando de editais cada vez mais burocráticos, disputando verbas que diminuem gestão após gestão, enquanto alguns governos, que têm a chave do cofre, distribuem milhões em troca de emendas a cada vez que um deputado ameaça não votar a favor daquela MP que vai tirar dos brasileiros não só o teatro, mas também o pão. São as reformas na “casa do povo” que já não tem teto. Um puxadinho sofrido.
Mas vamos a notícias melhores. Os paulistanos vieram ao Filo 2019 mostrar sua Companhia do Tijolo, cujo próprio nome é construção. Fizeram um espetáculo que resgata pensadores e pensamentos. De Garcia Lorca a Dom Helder Câmara, de Patativa do Assaré a Paulo Freire. No meio do espetáculo o público cantava junto, dançava com a trupe que saiu do palco e acabou em frente ao teatro, fazendo em Londrina uma festa popular, uma ciranda que julgávamos perdida, mas que renasceu das cinzas, assim como Teatro Ouro Verde. A arte é mesmo uma mulher teimosa.
Também veio o grupo Lume, de Campinas (SP), puxando o fio da memória dos atores e do grupo, naquilo que chamam “autoficção” e tem atmosfera de conversa na sala de casa, nos reportando ao álbum de família, ao casamento dos pais, ao nascimento dos irmãos, aos carros de época, aos tempos da ditadura quando líamos adesivos com a frase “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” e até cantávamos “Eu te amo, meu Brasil”, com Tom e Ravel, enquanto o tio “comunista” desaparecia misteriosamente. Lembramos também que a tia depois teve Alzheimer, através das fotografias que formavam um cenário que em parte é lembrança, em parte é esquecimento, em parte é trauma.
Depois veio o Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, mostrar “A Invenção do Nordeste”. E rimos da crítica bem-humorada, da reapresentação da história do Brasil através da colagem do pensamento de Ariano Suassuna, Gilberto Freyre e Glauber Rocha, entre outros. Uma cultura que dança ao som de Luís Gonzaga, Chico Science e Mestre Ambrósio, numa história contada para mostrar o avesso da costura da xenofobia que, não sei por que, reduz todos os nordestinos a “cabeças-chatas”, sem explicar sua fabulosa criatividade. Então o público aplaudiu o espetáculo em cena aberta e se levantou para aplaudir no fim.
Aí, alguém diz: “Londrina aplaude tudo em pé.” É verdade, felizes somos nós que formamos um público vibrante, educado, politizado que já está, no mínimo, há três gerações indo ao teatro. Com a mesma competência com que plantou café, Londrina plantou ideias que ainda atraem para cá pessoas do Brasil e do mundo. Sabemos receber a diversidade cultural, ainda bem. E por isso eu choro quando vejo a plateia em pé pela arte.


