Livrai-nos do mal
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
“Meu amado São Francisco, coloque suas mãos sobre este animal que precisa de Ti. Com a sabedoria de seu amor, atendei nosso pedido. São Francisco de Assis, rogai por nós!”
Passei dias procurando as orações de São Francisco depois de saber do caso horrendo das sessões de tortura a que foram submetidos cães da raça pit bull em uma rinha, em Mairiporã (SP).
Ao escolher uma oração, pensei também que ela serve não só aos animais, mas ao bicho-homem, essa fera capaz de cometer atos tão absurdos que tornam a espécie humana a mais perigosa do planeta. Roguei a São Francisco que volte seu olhar a estes “animais”, conferindo-lhes um pouco de compaixão.
Mas o que esperar do homem que devora o próprio homem e trata outras espécies de forma bárbara, a ponto de criar rinhas sangrentas, deixando cachorros sem comer nem beber por vários dias, antes das lutas, para que fiquem mais violentos?
O que esperar de homens adultos que se divertem com o sofrimento dos animais, que os submetem a um tratamento doloroso, os tratam como meros pedaços de carne e músculos sem sentimentos? Esses homens olharam alguma vez para os cachorros que manifestam alegria com a volta do dono? Que protegem casas e crianças dos perigos? Já os afagaram quando pedem carinho ou brincadeira? Já viram a gratidão de seu olhar numa situação de conforto ou felicidade? Perceberam sua tristeza ao serem confinados e acorrentados? Notaram a camaradagem em atos cotidianos como pegar o jornal ou esperar pacientemente pela dona numa padaria?

O caso da rinha de Mairiporã envolve uma crise ética que mostra o enorme desrespeito daqueles que não consideram outras espécies merecedoras de tratamento digno. Nessa categoria, enquadram-se os cavalos chicoteados no trabalho e alquebrados sob um peso que não conseguem carregar. Encaixam-se os pássaros presos e até de olhos perfurados “para que cantem mais”; os gatos envenenados pelo vizinho que implica com os felinos; os animais criados em condições extremamente sofridas para o consumo, em espaços exíguos, apartados de outros da espécie, colocados em corredores da morte , dependurados para a sangria nos matadouros.
Nossa cultura nos ensina a comer carne, mas penso nessas atrocidades há tempos e diminuo cada vez mais o seu consumo. Ainda não cheguei à condição ideal de aboli-la, mas já percebi a enorme diferença que faz para minha própria saúde limitar um bife a cada refeição, em vez de empilhar linguiças e bistecas no prato. Que a carne seja no máximo 10 ou 20 por cento da minha refeição diária porque existem legumes e verduras, grãos e frutas, ovos e cereais.
Mas existe uma diferença ética entre consumir carne para se alimentar e matar animais em espetáculos de tortura para devorá-los como um requinte de perversão, o “banquete” após a luta feroz, o prazer de assar e destrinchar um cão que, há poucos minutos, abanava o rabo para pedir alimento ou misericórdia.
Rezei pelos animais e pelos homens perversos que não os respeitam, os ferem, maltratam, usam, abusam, transformando sua dor num show de horrores. Existem mais rinhas pelo mundo afora, como alguém disse: “isso foi só a ponta do iceberg” e , sobressaltados, ficamos sabendo que um veterinário, que deveria amar e cuidar dos animais, e um médico, cuja missão é salvar vidas, estavam entre os participantes do festim que, sem nenhum exagero, podemos chamar de diabólico.
O mal, como já enfocaram vários autores, é uma condição da humanidade tanto quanto o bem. Estamos assim diante de uma situação ética, de livre arbítrio, consciência e – por que não? - de treva ou luz.
Soube que ao ser resgatado da rinha, um dos cachorros urinava sangue. Só de imaginar a cena , sinto dor e revolta pela falta de consciência dos homens, sua falta de luz que submete animais a tanto sofrimento. E lembro-me também da oração tão necessária que Jesus nos ensinou: “Livrai-nos do mal, amém.”


