O primeiro Natal sem alguém da família que se foi traz uma tristeza inevitável, mas também a oportunidade de abrir aquela caixa de lembranças.

Na verdade, meus pais já se foram há muitos anos e as histórias filtradas a cada Natal revelam-se como presentes que se transformam, muito além da tristeza, em lembranças doces.

Natal lá em casa era o dia de celebrar o aniversariante.

Jesus era lembrado como mestre por seus exemplos que indicam amor e solidariedade muito maiores do que anunciam, hoje, cristãos sem empatia genuína pelos diferentes ou pelos que mais precisam.

Quem diria que o acolhimento aos mais necessitados, a comida ao morador de rua ou a legítima compreensão pela situação dos mais pobres um dia seriam proibidas por leis ou regras que impedem a distribuição do pão nas ruas?

Isso era impensável na minha infância, quando as reflexões sobre os exemplos de Jesus misturavam-se com as homenagens familiares que marcam a data como um dia feliz.

Neste dia especial, até hoje, minhas manhãs ainda se abrem com a memória de uma árvore de Natal antiga, com bolinhas vermelhas, a neve de algodão, o anjo anunciador na ponta do último galho, como um sinal de fé passado de geração em geração.

O Natal como data religiosa e também de festa começava a ser celebrado na ceia do dia 24, quando havia oração perto da meia-noite, com uva e vinho sobre a mesa. Era a véspera do dia mais importante do ano quando a mãe tirava a louça especial do armário e preparava o empadão que no dia seguinte, na hora do almoço, era servido recém saído do forno com uma crosta dourada, pincelada com ovo.

A data era mágica por muitos motivos, desde a alegria dos presentes sob a pequena árvore à missa a que minha comparecia, nas manhãs de Natal, até a hora em que punha o avental enquanto meu pai contava histórias, muitas vezes bíblicas, sem a chatice de um pregador moralista.

Eram apenas histórias, com um sentido humano redimensionado pelo nascimento e a vida de Jesus que hoje ressoam como memórias dos que se foram, mas nunca partiram, tornando-se lembrança das doçuras de Natal que revisito a cada ano e, desta vez, não foi diferente.

Ainda ouço os sinos e as falas de muitas gerações quando viajo no tempo e reencontro o Natal intacto como a fotografia imaterial dos meus pais celebrando o Menino na manjedoura.

Natal, mais que lembrança, é vida que segue, com o amor de milênios e a memória dos que não estão mais aqui, mas permanecem desembrulhando presentes.

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