Leitores também escrevem suas memórias
Iraci Moers escreveu um livro de memórias com fatos da infância entrelaçados à história de Rolândia
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 2026
Iraci Moers escreveu um livro de memórias com fatos da infância entrelaçados à história de Rolândia

Gosto de conhecer leitores que às vezes me identificam e vêm falar comigo em lugares públicos. Há alguns meses, num evento no Espaço Villa Rica, Iraci Moers se aproximou e disse que me procuraria na FOLHA para levar um livro de memórias de sua autoria chamado "Uma Vida Abundante."
Assim conheci essa moradora de Rolândia que reuniu lembranças detalhadas de sua vida num livro que ainda não foi publicado. Ela me deu uma cópia na qual se misturam sua vida familiar e uma parte da história do Norte do Paraná.
O relato se inicia no ano de seu nascimento, 1951, e traz o nome da parteira, Christina Schurmann. A menção deste nome, entre outros, é importante como registro de tempos e nomes que vão se apagando e só podem voltar à história, muitas vezes, através de memórias pessoais, embora integrem a vida de toda comunidade.
A exemplo do livro "O Menino que Virava do Avesso", de Ney Inácio, sobre o qual a Folha 2 traz matéria nesta edição, a história de Londrina e região pode ser conhecida não apenas por registros oficiais, mas também por relatos, diários ou livros que abordam um viés diferente daquele já consagrado.
Iraci Moers traz nas suas memórias de infância a Colônia Muller, onde morou com seus pais, e fala das dificuldades como a falta de água e de um poço contaminado na cidade, integrada à colonização alemã, que nasceu do nada, com casinhas humildes, fogões a lenha e quintais onde se criavam galinhas.
Há referências a excentricidades típicas da época, como a do alemão Rolf Ditrich que mantinha um jacaré num cercado. Fatos que algumas pessoas de Rolândia devem conhecer, mas que as décadas engolem juntamente com outras histórias pitorescas.
Os pais de Iraci, Francisco Vicente Andreato e Maria Vicente, têm um capítulo especial no livro. Seu pai construía casas de madeira, depois de alvenaria, antes de ter sua oficina de torneiro mecânico. Seu avô materno, Manoel Félix, foi um dos responsáveis pela construção do Castelo Eldorado, em Marilândia do Sul, contratado por um homem chamado Henrique Start. Segundo Iraci, para a construção do castelo, local de lendas e histórias, foram importados materiais da Alemanha.
Iraci é prima dos irmãos Elifas e Elias Andreato, também nascidos em Rolândia. Elifas (1946-2022) foi um artista gráfico consagrado, responsável por capas icônicas de discos de MPB. O irmão Elias é ator e diretor de teatro, um ramo artístico da família que tem raízes no Norte do Paraná.
Um capículo trágico é o da morte do marido de Iraci, Christopher Moers, assassinado numa tentativa de assalto ao sítio da família, em maio de 2000.
Mas há também capítulos dedicados à superação do luto, ao trabalho de Iraci, que foi bancária na juventude e depois contadora, antes de se integrar ao movimento de implementação do turismo rural, através da ONG ADETUNORP - Agência de Desenvolvimento do Turismo do Norte do Paraná - participando de etapas de implantação de projetos como a Rota do Café e a Rota do Rosário.
Aos 74 anos, ela escreve suas memórias numa publicação que desperta interesse pelos detalhes da formação de Rolândia sob aspectos que, talvez, poucos conheçam. Nisso reside o valor de reunir histórias numa interpretação pessoal e informal que ajuda reconstruir a formação do Norte do Paraná em texto, fotos e afetos.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


