Jardins em série
Série da Netflix é um cult sobre a criação de jardins rústicos e artísticos
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2019
Série da Netflix é um cult sobre a criação de jardins rústicos e artísticos
Celia Musilli - Grupo Folha 
Assim como existem clássicos no cinema, dá para criar uma seleção de séries clássicas da Netflix. Para fugir da tensão de episódios sobre crimes, estados psíquicos alterados ou vícios tecnológicos, fico com as séries leves, dessas que despertam prazer sensorial. Olhos, ouvidos e até olfato se ligam na telinha quando a paisagem é arrebatadora como a série sobre jardins, um documentário do inglês Monty Don.
A série Jardins Italianos (2011) é um cult para quem gosta de conhecer a história dos lugares através da topiaria – técnica de esculpir a vegetação – ou a partir de canteiros que reúnem da eterna dália a plantas exóticas levadas até a Europa por viajantes, sobretudo nos séculos de colonização de outros continentes.
Jardins Italianos é uma aula sobre como a realeza ou a burguesia competiam criando jardins. Sob este aspecto, há histórias dos nobres que competiam com o próprio papa – almejando ser a autoridade máxima da Igreja – até a disputa entre vizinhos rabugentos: se um cultivava um bosque de espécies nativas, outro mandava trazer mudas de cedro do Líbano ou pessegueiros da China para parecer melhor.
O Renascimento traz os jardins artísticos como uma de suas marcas registradas. Nos arredores de Roma ou rumo a Nápoles as plantas nunca mais ficariam sozinhas, elas servem de moldura a esculturas, desabam na direção de fontes e espelhos d'água. As imagens de Jardins Italianos são poderosas, a ponto do espectador voltar os frames mais de uma vez para observar melhor os canteiros que se transformam numa sinfonia verde, especialmente na Toscana .
Mais ao sul da Itália, o solo especial e o clima quente deram origem a jardins mais naturais, coloridos, que muitas vezes despencam rumo ao Mar Mediterrâneo, em precipícios que impactam pela beleza, apesar da vertigem.
Monty Don narra a história dos jardins com a paixão própria de um jardineiro inglês que desde a juventude percorre a Europa em rodovias ou estradinhas de terra atrás das plantas. Seu gosto entusiasmado pelo assunto é autêntico, muito diferente do prazer cosmético que às vezes observamos em séries televisivas nas quais o narrador aparece mais que o tema.

Em 2013, ele lançou outra aventura repleta de imagens e histórias: Jardins Franceses, na qual muito além dos campos de Versalhes, ele se embrenha em bosques, jardins do interior e até hortas. O gosto pelos jardins move criações absolutamente surpreendentes como a do jardineiro francês que aproveitou um território atingido nas guerras para podar plantas como se fossem soldados de um batalhão, além de cavar buracos, circundados por plantas, para lembrar os bombardeios na Normandia. Já nas entranhas da Provence, pequenas fazendas oferecem não apenas flores, mas frutas e legumes que caracterizam a culinária da região. E lá está Monty Don, provando sopas de abóbora feitas pela população rural ou tomando vinhos fabricados em mosteiros.
A exuberância dos jardins da França chega ao ápice com a paisagem do Jardim de Monet, em Giverny, local que o artista consagrou em suas telas, sobretudo na série sobre as ninfeias. O máximo da sofisticação é encontrada no Jardim Cubista criado pelo arquiteto Gabriel Guevrékian entre 1910 e 1930. Ele sinaliza o conceito do “jardim moderno” criando um paralelo entre as plantas e a pintura.
No Brasil, Burle Marx , pintor, escultor e paisagista, revolucionou conceitos básicos, consagrando-se como criador de jardins que também se aproximam da pintura, estamparia e até mesmo das tapeçarias. Não custa lembrar que Burle Marx foi o paisagista que criou os jardins do Lago Igapó, em Londrina.
Também não custa lembrar que no Brasil temos “jardins naturais”, formados pela exuberância da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica, cujas plantas aquáticas formam quadros dignos de Monet. Se eu fosse documentarista, tendo em vista a devastação acelerada de nossas florestas a partir do desmonte cada vez mais traiçoeiro das políticas ambientais, correria com a câmera em punho para celebrar aquilo que um dia não teremos mais. No Brasil, o futuro da paisagem em seus biomas naturais está ameaçado e a perda será irreparável. Já temos cruéis exemplos disso desde o sul até a Amazônia, nosso Jardim do Éden condenado.


