Jane Goodall: 'Trump e Musk deviam ser despachados num foguete'
Na Netflix, a maior especialista em chimpanzés do mundo dá uma entrevista que só foi divulgada após sua morte
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sábado, 22 de novembro de 2025
Na Netflix, a maior especialista em chimpanzés do mundo dá uma entrevista que só foi divulgada após sua morte

Este ano, o mundo perdeu uma das cientistas mais importantes dos últimos dois séculos: a britânica Jane Goodall, nascida em 1934, e falecida em 1º de outubro, aos 91 anos.
Em março, a cientista considerada a maior especialista mundial em chimpanzés, concedeu a entrevista "Famosas Últimas Palavras", para ser divulgada apenas depois de sua morte.
A entrevista acaba de ser lançada pela Netflix, que planeja uma série de oito episódios com grandes nomes da ciência e da cultura. Na entrevista, a Dra. Jane revela como seu interesse pela natureza começou na infância, quando ganhou de seu pai um chimpanzé de pelúcia.
A curiosidade extrema a levou na juventude a desejar ir para a África, o que conseguiu a partir de um contato com o paleontólogo Louis Leakey.
A partir dos anos 1960, ela dedicaria seis décadas de sua vida estudando os chimpanzés, demonstrando cientificamente as características que esses primatas desenvolvem, destacando-se o uso de ferramentas, a demonstração de emoções complexas - expressadas em abraços, beijos e tapinhas - e também a tendência a gerar conflitos, guerreando entre si ou contra aquilo que os ameaça. Os chimpanzés compartilham 98% do seu DNA com os humanos.
Nas décadas que passou na África, a Dra. Jane conviveu nas aldeias onde se sentiu protegida desde a chegada por um nativo que era considerado o feiticeiro da tribo.
Na sua última entrevista, ela fala de ciência, mas também de espiritualidade, relatando a conexão que tinha com a natureza, incluindo suas "conversas com a chuva", que fez parar em dois momentos de necessidade. A naturalidade com que ela conta esses fatos, desarma o espectador pela compreensão filosófica da doutora sobre poderes transcendentais.
Mas Jane Godall também é bastante crítica na sua última entrevista. Ela combate o negacionismo e lamenta que a extrema direita esteja avançando sobre o mundo, fazendo do dinheiro um deus à parte. Ela declara o desejo de despachar Elon Musk e Donald Trump num foguete para o espaço sideral, e também não poupa Vladimir Putin e Xi Jinping, considerando todos como lideranças negativas num planeta em risco.
Há uma passagem histórica na vida da Dra. Jane, quando a chimpanzé Wounda, que havia sido resgatada do tráfico animal, depois de ser tratada num centro de reabilitação na África é libertada da jaula e, antes de voltar para a floresta, abraça longamente a pesquisadora que cuidou dela, num gesto de gratidão.
Esta é apenas uma passagem da vida mágica de uma pessoa devotada à ciência que deixa como mensagem o temor pelo futuro do planeta, recomendando à humanidade um extremo cuidado com o meio ambiente para evitar aquilo que os cientistas chamam de "ponto sem retorno". Sobre isso, a Dra. Jane declara que estamos próximos da "sexta extinção", considerada mais um período de extinção em massa, sobretudo, por ações humanas. E isso não é ficção, é ciência.
Aos negacionistas fica o testemunho de uma pesquisadora que comprovou não só nossa proximidade com os chimpanzés, mas demonstrou que a vida depende de nossa capacidade de cuidar e abraçar a Terra como a mãe a quem devemos gratidão. Que a cena tocante do abraço da chimpanzé Wounda na Dra. Jane nos inspire como um gesto de afeto e paz.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


