Inverno de vidros e braços abertos
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sábado, 06 de julho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
Khalil Gibran é um dos maiores poetas da língua árabe. Nascido no Líbano , expressava a liberdade de existir desde menino e corria no meio das tempestades, até a ser pego pela mãe que lhe esfregava álcool no corpo com medo que adoecesse.
As tempestades sempre me lembram Gibran. Não que seja íntima delas, ao contrário, quando chove, corro fechar as janelas repetindo um gesto de minha mãe para quem a tempestade significava “vamos ficar bem quietos, trancados, só ouvindo os trovões, assim nenhum raio nos pega.”
Esta semana choveu, a madrugada de quarta para quinta-feira foi de pingos finos e grossos, um barulho que sempre me fez pensar em música, comparação que repassei aos meus filhos pequenos para que não tenham com a chuva a relação de medo que me incutiram na infância.
A madrugada de quarta para quinta-feira foi o verdadeiro início do inverno anunciado, este ano, pela “maior onda fria”, segundo os meteorologistas que previram a chuva intensa para depois o termômetro despencar como um corpo no abismo, de 18 para zero grau.
As mudanças de temperatura sempre me causam deslumbramento: é como mudar, de repente, de Londrina para o Chile, passar dos trópicos para a Patagônia, ultrapassar a linha do Equador num voo sem avião para desembarcar em zonas frias que não são comuns para quem vive no norte do Paraná.
Por acaso, abri uma biografia de Gibran no dia da chuva intensa e li que o poeta amava as tempestades pelo que lhe inspiravam de liberdade a toda prova. Tenho um filho parecido com Gibran: enquanto fecho tudo, ele abre a vidraça do quarto quando chove, não se importando muito com os respingos que possam umedecer a cortina ou com as rajadas mais frias de vento. Ele me diz que “funciona como ar condicionado” e a clareza da resposta, junto com o argumento “me deixe escolher as coisas básicas”, me fazem recuar na censura que me impele a fechar todos os vidros, sem deixar nenhuma fresta.

Aprendi com o tempo, que meu filho, mais que eu, vive intensamente as estações e as variações de temperatura, numa atitude natural como aquela que devia ser a dos homens antes dos agasalhos, casacos e cobertores, antes das fogueiras, fogões a lenha e aquecedores elétricos.
A humanidade sempre lutou para vencer as intempéries, em vez de se adaptar a elas. Até por isso, quando vejo alguém afirmar que ama as tempestades, penso que se trate de gente mais à vontade com o mundo que lhe coube.
Claro que não temos por aqui as baixíssimas temperaturas do inverno de Tóquio ou Nova York, somos o país das amenidades e, mesmo num verão de 40 graus, temos água suficiente para nos refrescar, uma costa imensa, praias a perder de vista ou, no mínimo, um quintal refrigerado por mangueiras ou um terraço em que bata a boa brisa.
Mas tenho admiração por essas pessoas excessivas, Gibran ou meu filho nunca tiveram medo das tempestades, o poeta dizia que elas “libertavam seu coração de preocupações e sofrimentos.” Penso que talvez seja isso que faça essas pessoas trocarem a segurança das janelas fechadas pelos vidros abertos. Um arrebatamento, um momento tão intenso das criaturas em relação à vida que as aflições são varridas pelo vento e as preocupações lavadas como quem toma um banho de cachoeira.
Talvez, o contato com a intensidade do mundo ao natural seja o remédio para as angústias que o excesso de proteção nos impõe, conectados em celulares e computadores, apartados da vida que esfria e aquece, seca e molha, amanhece e anoitece. Como disse Gibran, para quem a tempestade era um momento criativo: “A beleza não é um desejo, mas um êxtase”.
E há quem não consiga se não viver assim, com a intensidade da tempestade e o desafio de enfrentar o inverno de vidros e braços abertos.


