Imprensa brilha menos sem Dines
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sexta-feira, 25 de maio de 2018
O jornalista Alberto Dines morreu na última terça-feira (22), aos 86 anos. Imediatamente lembrei-me de tê-lo conhecido no Theatro Municipal de São Paulo, em 2015, quando assistia a uma ópera com um amigo e, de repente, vi que ele estava sentado bem atrás de nossas poltronas juntamente com a esposa, a jornalista Norma Couri.
Confesso que balancei ao conhecer Dines e, em menos de dez minutos de conversa, percebi que estava diante de um gentleman de olhos claros, que transmitiam conhecimento e serenidade. Mais que isso, sabia que estava apertando a mão de um dos maiores ícones da imprensa nacional.
De Dines tenho as melhores referências. A começar por seu trabalho no Jornal do Brasil, entre 1962 e 1973, justamente os anos da mais significativa revolução gráfica e editorial do veículo que mostrou ao País a possibilidade de fazer reportagens de um jeito novo. Os investimentos em cultura no jornal no período - com a inovação gráfica de Amílcar de Castro e talentos como Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar e Carlos Heitor Cony na redação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB) - são uma demonstração de que os cadernos de cultura significam uma das principais bandeiras de qualquer veículo que queira se modernizar. É a partir das ideias e dos debates culturais que podemos aferir o nível de sofisticação do pensamento nacional em momentos como aquele em que o SDJB brilhou.

Dessa fase, guardo também exemplos de solidariedade de Dines com seus colegas. Consta num livro de entrevistas sobre Clarice Lispector que os amigos sempre recorriam a ele quando a escritora estava em dificuldades. Para sobreviver num país onde a literatura sempre foi um "trabalho menor", Clarice atuava em jornais e, voltando da Europa com dois filhos pequenos, depois de se divorciar de um diplomata, a autora de "O Lustre", então já consagrada pela crítica, fez da imprensa seu meio de sobrevivência. Dizem que os amigos comunicavam a Dines: "Clarice está passando por dificuldades." E ele, como diretor do JB, lhe abria as portas da redação, na qual ela atuou até mesmo como colunista de artigos femininos, usando para isso um pseudônimo. Não era fácil para uma autora de sua altitude escrever para a imprensa, tinha dificuldades de se adaptar a uma linguagem mais corriqueira e a conteúdos informativos. Mas dava conta do recado e Dines, pelo visto, confiava que ela conseguiria tudo, até mesmo descer do Olimpo do seu texto sensível para as receitas de bolo, além de dar conselhos sentimentais num tempo distante das guerrilhas feministas que foram se firmando através das décadas no Brasil contemporâneo.
A trajetória de Dines é daquele tipo que qualquer profissional de impressa deseja, e até mesmo inveja, como um exemplo de profissionalismo. Ele atravessou os anos da ditadura valendo-se de metáforas quando não podia publicar só a verdade. Quando o AI-5 foi implantado, em 1968, mandou para a capa do Jornal do Brasil uma previsão do tempo sinistra e fabulosa: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máxima de 38º, em Brasília. Mínima de 5º nas Laranjeiras."
Dines dirigiu redações e trabalhou nos maiores jornais e revistas do Brasil deixando sua marca: JB, Folha de São Paulo (sucursal do Rio), Manchete, Visão, Fatos e Fotos, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Diário da Noite, O Pasquim. Inesquecível seu trabalho na revista eletrônica Observatório da Imprensa, a partir de 1996, onde o acompanhei durante um longo período. Que falta faz seu olhar analítico no Brasil que passa por um dos momentos mais críticos de sua História.
Esta semana, com sua morte, ficamos sem saber o que ele comentaria sobre a greve dos caminhoneiros. Imagino que também consideraria, mais uma vez, que o tempo está instável, a temperatura sufocante e o ar irrespirável. Que seu exemplo inteligente e crítico no jornalismo nos sirva de inspiração no País varrido por tempestades das quais desconhecemos o fim.



