CÉLIA MUSILLI -

Filhos que vêm e que vão


Já se passaram 24 anos desde que eles nasceram. Ficaram para trás as 14 mamadeiras diárias para os filhos gêmeos, a troca de fraldas às 5h30 da manhã , o sono embalado, a partir das 19h30, quando eu voltava do trabalho e eles iniciavam o cotidiano de cólicas dos recém-nascidos.


Vão longe as tosses noturnas e os passeios matinais, o vento nos cabelos dos dois meninos que entendiam a linguagem das árvores e eram levados nos carrinhos pelo bairro, no meio das feiras livres e dos sorrisos da vizinhança. Dois bebês grandes, daqueles que nascem gêmeos com mais de 3 quilos cada, e se transformam numa pequena atração desde o berço, para depois seguirem a aventura com joelhos esfolados, unhas lascadas, ossos partidos numa "escalada" ao poste, numa antevisão de que a vida adulta machuca.


Hoje, depois de meses ausentes, eles voltam para casa, às vésperas do meu aniversário e do dia das mães, e a volta é o maior presente, embalado com laços de afeto.  E porque hoje eles voltam,  dobro os cuidados como se ainda dobrasse  as camisetas espalhadas pelo quarto. Troquei as camas, lavei os cobertores para que tenham cheiro de "casa de mãe", pensei em comidas caseiras, comprei a cerveja porque os filhos estão de volta e, com eles, o clima de festa. 

 

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. | Marco Jacobsen
 


Hoje eles vão chegar com violões e guitarras. Teremos um show ao vivo, com os sambas de Noel que Gustavo sabe tocar, acompanhados de uma voz que parece a de um senhor das candongas, mas que é a de um cara sensível  que gosta de música brasileira. Ainda haverá  a guitarra, com Fernão se esmerando num heavy metal quase insuportável, embora eu aprecie sua exímia habilidade nos solos que gritam como se sua alma saísse pelas cordas e pelas letras rebeldes, cantadas com voz cavernosa. Ouço o heavy metal como ouço Noel, num sinal de pacificação com a música que eclode aqui em casa.


Quando eles chegam, "abro meus braços de rio", como já disse num poema de amor, mas no caso deles, abro meus braços de mar, como a mãe das águas que acolhe os filhos entre as conchas e os mistérios de um mergulho profundo. A maternidade é isso, um mergulho profundo, cem mil léguas submarinas à procura de tesouros e evitando naufrágios.


Como disse Guimarães Rosa, "viver é perigoso", e as mães têm uma espécie de alarme que soa toda vez que os filhos caem do escorregador ou de uma altura mal calculada. Estamos ali para colar os cacos. Ser mãe é adquirir um kit de proteção eterna, pensando que  nossas caixas de primeiros socorros podem curar todas as feridas. Mas cada um deve aprender a assoprar seu próprio machucado porque não estaremos juntos no futuro. A grande lição é amar, só que estamos sujeitos a tombos.

Mas enquanto a mãe existir, ela abrirá  seus braços de mar: com água, sal e band-aid, que nunca faltam na caixinha de afetos, mantida sempre à mão, do começo ao fim dessa aventura.     


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