Experiência literária com os mistérios de Clarice
Num livro há uma relação de intimidade entre o autor e as tramas de nossa própria história que nem sempre queremos dividir
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 2025
Num livro há uma relação de intimidade entre o autor e as tramas de nossa própria história que nem sempre queremos dividir
Celia Musilli 

A escrita, além de ser um trabalho laborioso, é também um mistério. Da mesma forma, a interpretação que um leitor faz de um texto passa por caminhos que têm a ver com sua própria bagagem.
Ao ler retomamos nossas próprias experiências, fazendo conexões bastante pessoais e que, talvez, nunca passem pela cabeça de outro leitor da mesma obra.
Reflito sobre isso a partir de uma entrevista de Fauzi Arap, diretor, autor e ator do teatro brasileiro. A entrevista está no livro "Clarice na Memória dos Outros" (editora Autêntica - 2024) , organizado por Nádia Batella Gotlib que reúne entrevistas, depoimentos e impressões de tantos quantos tiveram alguma experiência pessoal e literária com a autora de "A Paixão Segundo GH", "Perto do Coração Selvagem", "Água Viva" e outros livros que nos põem diante desse mistério que é a literatura, um trabalho de dedicação e imaginação.
Fauzi Arap fala da comparação que faz da leitura de "A Paixão Segundo G.H." (1964) com uma experiência lisérgica. "O romance trazia toda a extensão alucinatória, toda extensão religiosa! Então, quando li o romance descobri ali um ótimo álibi para falar dessas experiências sem provocar escândalos e agressões."
Ele fala do espetáculo "Perto do Coração Selvagem" (1965), baseado também em outros livros como "A Paixão Segundo G.H." e "A Legião Estrangeira". Foi a primeira adaptação da obra da autora para o teatro no Brasil. Arap retomaria ainda outros textos fabulosos de Clarice no grande show "Rosa dos Ventos" (1971), de Maria Bethânia, dirigido por ele.
Fauzi Arap e Clarice Lispector se aproximaram em muitos momentos, a ponto da autora contar com ele na elaboração do livro "Água Viva", meu preferido, no qual estão inscritos mistérios de forma intensamente poética.
Arap revela que a autora tinha acabado de escrever "Água Viva" em 1971, mas foi enxertando textos ao livro que acabou sendo publicado em 1973. Ele compara esses enxertos ao aproveitamento de "restos de textos", como uma dona de casa faz o aproveitamento de "restos do bolo". Ele se encarregou de sugerir cortes de alguns pedaços, ela aceitou. E o título do livro acabou sendo dado por ele: "Água Viva" - muito apropriado a uma literatura que queima - em vez de "Atrás do Pensamento", título original que tem muito a ver com aquele texto de fluxo contínuo.
A experiência de cada leitor com um livro é uma revelação de mão dupla. Na leitura, experiências pessoais voltam à mente, ao mesmo tempo que o autor nos revela aspectos que só podem estar na literatura, um jogo de claro e escuro que ilumina e, outras vezes, nos deixa confortavelmente imersos no que não se conta.
Nem tudo revelamos de nossa própria leitura. Num livro há uma relação de intimidade entre o autor e as tramas de nossa própria história que nem sempre podemos ou queremos dividir. Uma conexão única de experiências e memórias que sempre reencontro na literatura de Clarice Lispector.


