Entre o jornalismo e a poesia: um espaço de dilemas
Há sempre o dilema, em parar para ver o poema ou a notícia em dias de pouca paciência para engolir sapos
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sábado, 27 de setembro de 2025
Há sempre o dilema, em parar para ver o poema ou a notícia em dias de pouca paciência para engolir sapos

Acordar e ler o noticiário é um antipoema. Saber que Paulinho da Força afirma que a votação da redução do IR está condicionada a anistia de golpistas, afasta o verso, suspende a rima, dá vontade de sair quebrando o pau com as palavras.
Mas a poesia desce de disco voador, às vezes de nuvens que flutuam sobre a cidade e pousam ali no Calçadão que se cobriu de flores.
A poesia é um alienígena disfarçado neste planeta em que "se quebrou o mito da ética ocidental sob os escombros de Gaza", como disse Lula naquele discurso que passou desta semana para a história.
Mas há o dilema, sempre o dilema, em parar para ver o poema ou a notícia em dias de pouca paciência para engolir sapos. A vontade é dar uma resposta venenosa.
Nestes dias, vou me consultar com mestres como Ferreira Goulart, que disse tudo numa época de convulsão nacional e mundial, uma semelhança absurda com o que se presencia hoje.
"No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida."
Aqui do Calçadão, coberto de flores, vislumbro a nave e tento avistar outro poema, me desviando dos ataques de notícias ruins. E chega Neruda:
"Me perguntam: por que os seus poemas
não falam dos sonhos, das folhas,
e dos grandes vulcões de seu país natal?
*
Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!"
Assim, percebo também o dilema do poeta, aquele que escreveu os mais lindos versos de amor e respostas duras como a ponta das baionetas em versos, sempre em versos.
Há dias em que os poetas nos visitam como fantasmas que nunca saíram deste mundo, flutuam por aí para mostrar que a linha da transcendência é muito estreita. Um dia de mau agouro com a política nacional, outro de alegria pela primavera, um sabiá ligeiro, o gato que pede amor esticando a pata como quem acaricia a dona e fica te olhando com aquele azul translúcido.
E vem a notícia, sempre a notícia, que pode ser a crônica dos desassossegos ou ser dominada pela suprema indiferença de quem ironiza a realidade como aquilo que podemos viver pelo avesso, com seus nós, ou pelo lado dos bordados das palavras.
Nessa hora, Manoel de Barros vem me dizer como lidar com as agruras, pisando em cacos de vidro para extirpá-los sem muita dor.
"Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
Que o esplendor da manhã não se abre com faca"


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


