Um dos dramas pessoais mais impressionantes da história de Londrina ganhou outra dimensão 80 anos depois da morte do Dr. Gabriel Martins sacudir a cidade, no dia 23 de abril de 1943.

O resgate da história, feito pelo escritor Marco Fabiani, mostrou as camadas do drama primeiro no palco, quando foi montada a peça teatral "Dr. Gabriel - Uma Alma Partida", dirigida por Silvio Ribeiro, em 2023, consagrando-se como um grande sucesso de público. O espetáculo voltou a ser apresentado este ano e está em cartaz neste sábado (14), na AML Cultural, às 20h.

Agora, essa história ganha as páginas de um livro homônimo, lançado na última quinta-feira (12), com um texto dramatúrgico que traz a arqueologia de memórias feita por Fabiani.

A lembrança do Dr. Gabriel Martins ainda está nas ruas de Londrina, embora poucos saibam que a praça no Calçadão, que leva seu nome, é uma homenagem a um médico pioneiro que, antes mesmo de viver uma trágica história de amor, já podia ser considerado parte memorável da cidade por seu trabalho na saúde pública. Ele foi o criador do Hospitalzinho dos Indigentes, destinado a pessoas sem recursos num tempo em que a cidade nascia com as correntes de migração que chegavam para construir Londrina, edificada por gente de todas as classes sociais.

Na história de Dr. Gabriel há um drama: a doença de sua noiva, acometida por hanseníase, num tempo em que a doença era um estigma que obrigava as pessoas que a contraiam a afastarem-se do convívio social, ficando nos sanatórios em isolamento. Dr. Gabriel era um médico da saúde pública, era ele quem comunicava às autoridades os casos de doenças graves e, neste ponto da história, entra um dilema ético que feriu de morte a trajetória de um homem obrigado a fazer uma escolha dramática entre o amor de sua vida e a proteção da vida de outras pessoas na cidade.

Tomado pelo conflito, ele optou por comunicar a doença da noiva às autoridades, uma obrigação que provocou seu dilaceramento íntimo, a ponto dele se suicidar depois de cumprir seu dever. Antes, assim como hoje, o suicídio não era divulgado e isso fez com que constasse na sua certidão de óbito um ataque cardíaco como causa da morte. Passados mais de 80 anos, Marco Fabiani traz a versão real da história de um homem que sucumbiu a um conflito, redimensionando a potência das forças de um amor trágico.

Na trajetória do Dr. Gabriel consta ainda um episódio sobrenatural, contado apenas em rodas de conversa, e que não se sabe se é verdade ou lenda. Ouvi de um amigo que no dia da morte do Dr. Gabriel, sua família, que morava nas imediações do cemitério, o viu entrando no local. Só horas depois, a notícia de seu falecimento correu a cidade, de onde se conclui - para aqueles que acreditam na vida após a morte - que seu espírito foi visto pela vizinhança antes do anúncio do falecimento. Ele ainda teria cumprimentado a família que o avistou, tirando o chapéu, antes de seguir para seu lugar entre os mortos.

Ninguém pode atestar se isso é verdadeiro, mas considero a história tão instigante que resolvi contá-la. Um morto que segue seu destino tirando o chapéu, decerto é uma pessoa que sabia o que estava fazendo. Morrer às vezes é uma escolha e, pela dor de quem encerra sua própria vida, devemos respeitá-la.

mockup