Na última terça-feira uma cena curiosa irrompeu meu dia, vista da janela de um edifício na Avenida Paraná.

Sentada num banco na esquina da avenida com a rua Hugo Cabral, uma senhora com tesoura na mão cortava os pelos de um cachorrinho com o capricho de uma cabeleireira.

Não resisti. Desci do prédio, atravessei a rua e fui conversar com a mulher que vejo sempre, idosa, com sua bengala, e acompanhada do cachorro.

Soube então que seu nome é Carmen Lúcia Pascoal, ela informou destacando que "Lúcia tem acento no u".

- E qual é o nome do cachorrinho?

- É Benny. Com dois enes e ípsilon.

Sentei-me ali com eles. Benny, enrolado na manta de lã, curtia o sol com sua dona num dia tão frio que ficava encolhido.

Dona Carmen Lúcia - com acento no u - vive em Londrina há 12 anos. Veio de São Paulo, onde foi secretária do antigo IBDF - Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - hoje Ibama, e dá valor às árvores, assim como deu valor às florestas quando ajudava nos licenciamentos ambientais e nos trâmites da exportação de flores, devido à sua função num órgão do governo.

Dona Carmen ficou viúva em 1982, teve outros empregos em São Paulo, acabou vindo para Londrina onde se tornou personagem da avenida Paraná, moradora do histórico Edifício Santo Antônio

No trecho entre a rua Hugo Cabral e a Pernambuco ela passeia diariamente com Benny, que na última terça-feira ganhou uma "franja" nova, cuidadosamente cortada por sua dona que leva uma tesoura na bolsa.

Benny é muito simpático, não estranha quando uma desconhecida, como eu, alisa seus pelos. Frequenta a padaria Family, onde a sua dona toma café todas as manhãs enquanto ele fica por ali, pertinho da mesa, apreciando o movimento de quem entra e sai.

Benny só fica irritado quando dona Carmen chama sua atenção.

- Se fico brava ele nem olha mais pra mim, vira a cara, fica emburrado até a hora de dormir.

Benny acorda cedo para o passeio em dia de sol ou de chuva. Onde dona Carmen estiver, Benny estará também, é o companheiro inseparável de uma senhora de 80 anos que já sofreu um acidente na rua Hugo Cabral, onde quase foi atropelada.

- Machuquei a perna depois de cair no chão e Benny perdeu duas unhas.

Dona Carmen é assinante da Folha de Londrina, gosta das páginas de política. "A política realista e não essa da polarização, da confusão ", explica.

Benny também aproveita o jornal.

- Mas para fazer suas necessidades? - pergunto espantada.

- Não, ele fica deitado no jornal que já li quando saio de casa e ele fica sozinho.

Aliviada, fico sabendo que Benny não lê nem suja as páginas, mas se deita para ficar quentinho sobre o papel que deve ter o cheiro de sua dona, matando assim a saudade até ela voltar para casa e, quem sabe, levar um petisco.

Dona Carmen e Benny são personagens da avenida Paraná, como outros que humanizam o centro da cidade, eles são representantes de uma Londrina que amanhece no Calçadão todos os dias.

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