Doentes e sobreviventes dão lições de esperança
Existem pessoas que carregam a dor com dignidade, dando passos lentos que são mais importantes do que não dar nenhum
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sábado, 18 de abril de 2026
Existem pessoas que carregam a dor com dignidade, dando passos lentos que são mais importantes do que não dar nenhum

Ao nascer carregamos o mistério de não saber de onde viemos. Ao morrer levamos junto o mistério: para onde vamos?
Durante a vida, sujeitos a vulnerabilidades, enfrentamos situações que se não abrem as portas dos mistérios, nos condicionam à coragem ou à fraqueza, dependendo de como encaramos a experiência de viver e a finitude.
Tenho um amigo que sobreviveu depois de levar tiros numa tentativa de assalto. Numa daquelas noitadas paulistanas, ele saiu para beber e se divertir, topou com um sujeito mal intencionado que poderia ter selado seu fim. Meu amigo, um 'outsider' que reza todos os dias o Pai-Nosso, sobreviveu. E lá se vão mais de dez anos depois da noite em que veio o tiro, o socorro imediato no carro de desconhecidos, uma cirurgia às pressas e dias num hospital.
Tenho amigas que se curaram de doenças graves e amigos que sobreviveram depois de afundarem o maxilar em acidentes. Eles conseguiram ter tudo de volta no lugar e, hoje, esboçam um sorriso quase torto, mas que expressa um amor incondicional à vida.
Existem ainda aquelas pessoas que vemos em clínicas e hospitais carregando a dor com dignidade. Para elas é mais importante dar passos lentos do que não dar nenhum, se levantar da cadeira com truques como se apoiar com todo o peso num braço de cadeira, fazendo o movimento de quem levita, quando as pernas já não obedecem.
Admiro os que enfrentam doenças com a serenidade de quem conhece a finitude como um vizinho que pode nos ignorar por anos, até nos chamar à porta daquele mistério que nos encaminha , talvez, para a resposta à pergunta: "Para onde vamos?"
Há os que se condicionam à coragem pela fé, há os que se condicionam à ideia de que nem sempre é preciso estar doente para morrer, às vezes, basta atravessar a rua sem olhar para os dois lados.
Todos os dias há quem perca pai e mãe, todos os dias há quem perca filhos numa daquelas tristes inversões de ciclo que carregam os jovens antes dos velhos. Para mim, essa é uma dor inconsolável, difícil achar conforto quando um filho sofre a queda prematuramente no insolúvel.
Mas, sem julgamento moral, digo que não tenho admiração por quem coloca a vida em risco. Não vejo motivos para alguém escalar o Himalia congelado, com aquelas frestas abertas à espera de um escorregão do incauto. Não tenho admiração por quem desafia crocodilos, nem por quem morre de tiro porque praticou um assalto.
Expor-se a perigos extremos não são conquistas admiráveis. Ir ao encontro do novo, como Colombo quando veio a América, é diferente de se pôr em risco bestamente, pela vaidade de fazer algo que nem mesmo é inusitado.
Prefiro os que vivem e morrem com dignidade, na luta, pondo-se em movimento quando não tem mais pernas, levantando-se da cadeira quando, às vezes, não têm braços. Essa coragem é o que a vida quer. Até mesmo quando resistimos a conta-gotas não como super-heróis, mas como pessoas que atravessam os campos da doença em busca da chance de ver o sol nascer por mais um dia, até o poente inevitável


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


