Deputados transformam o Congresso na 'Casa da Mãe Joana'
Falar em ditadura colando esparadrapos à boca, para perder uns fios de bigode, equivale a uma mulher em luto dançando tango
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sábado, 09 de agosto de 2025
Falar em ditadura colando esparadrapos à boca, para perder uns fios de bigode, equivale a uma mulher em luto dançando tango

Esta semana, as cenas da tomada da mesa da presidência do Congresso foram dignas de uma ópera bufa. Com esparadrapos na boca, deputados de oposição ao governo protagonizaram uma situação de rir ou de chorar, porque havia ali uma contradição acerca da ideia da "ditadura" que o Brasil estaria vivendo.
Que ditadura é essa em que, ao mesmo tempo em que denunciam uma suposta censura, eles proferem discursos como únicos donos do plenário, colando e retirando os esparadrapos da boca para fazer uma live ou dar entrevistas?
Se a ideia de "censura" é essa, a ópera fica, no mínimo, deslocada.
Falar em ditadura tomando o Congresso, colando e descolando esparadrapos, a ponto de arrancar apenas alguns fios do bigode, equivale a:
- um sujeito em "greve de fome" encher a barriga na churrascaria
- uma mulher em luto vestir paetês para dançar tango
- um abstêmio tomar uma garrafa cheia
Falar em ditadura pintando e bordando no Congresso e no Senado, sem que ninguém seja preso, representa um contrassenso.
O máximo a que chegou o presidente do Congresso, Hugo Motta, foi informar aos deputados, que tomaram sua cadeira, que eles poderiam sofrer suspensão de mandato por seis meses. Uma suspensão como a da quinta série, depois de xingar, esbravejar e encenar a "falta liberdade de expressão" com ameaças.
No início da ditadura militar, em 1964, eu era criança. E a ditadura pra valer "prendia e arrebentava", como pregou, depois, o general João Figueiredo.
Eu via os adultos, sob censura de fato, cochichando sobre o vizinho que foi preso, o tio que foi torturado, o estudante que foi morto. Hoje, deputados e senadores tomam as "casas do povo" como a "Casa da Mãe Joana", e recebem uma advertência escolar.
"Casa da Mãe Joana" é uma expressão do século 14, associada à rainha Joana, de Nápoles, que liberou geral os bordéis em Avignon. Hoje, significa um lugar onde tudo é permitido, sem regras, como nas 30 horas em que o Congresso foi tomado.
Os deputados insurgentes querem negociar a "anistia" de um ex-presidente, em julgamento, que nem sequer foi preso. Está em prisão domiciliar, com tornozeleira, numa casa em área nobre de Brasília. Ele quis cumprir - ou descumprir - medidas cautelares fazendo lives e pontas de discurso em manifestações em seu favor, como no último domingo.
Quem dera os julgamentos de 1964, esses que apoiadores do ex-presidente proclamam como da "era da liberdade", permitissem a deputados descolarem esparadrapos da boca perdendo apenas alguns fios do bigode, não a vida.
A cena patética da última terça-feira, que avançou até quarta, causaria um show de repressão da Casa Branca ou de qualquer regime, onde situações como os crimes de lesa-pátria estão sujeitos à pena de morte. É essa "democracia" que queremos, à base da ameaça de uma injeção letal aos insurgentes? Ou cabe a quem é eleito e pago pelo povo não travar a votação de pautas que interessam à nação?
O Brasil precisa tomar cuidado com a democracia, essa criança não pode cair do berço. Uma "ditadura" na qual as instituições funcionam, embora a oposição tome o Congresso, não é ditadura. É democracia, na qual é julgado quem bate sucessivamente na tecla das tentativas de golpe. A situação da última terça-feira foi mais uma, com os deputados na churrascaria falando em "greve de fome."


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


