De novo, feliz ano novo
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
O ano que passa é o presente que embrulho de volta para deixar quietinho à espera de um novo ano. Dentro dele estão as coisas boas e ruins do ciclo, vistas e vividas como ensinamentos. A cada ciclo, as experiências se sucedem como lições de prazer e angústia, afetos e abandonos, encontros e desencontros porque também a vida sabe embrulhar e desembrulhar “presentes”.
O tempo dá a cada acontecimento um significado diferente, diria mesmo que nos acostumamos à ideia de alegria e dor. Aprendemos a não lamentar tanto o que perdemos para poupar os outros, nada mais pesado que uma pessoa que lamenta sua própria vida. Antes ter a gratidão e a compreensão de que aquilo que deixamos para trás também cumpriu seu tempo. E que o vazio que nos visita às vezes cria o espaço necessário para o novo.
Então, se um de nós terminar este ano no vazio que não se lamente, antes, celebre a abertura de um novo ciclo. Porque o novo só cresce onde existe espaço, sem ossos e sem lamentações. Conflitos e amarguras não abrem caminhos, ao contrário, os fecham quando se tornam maiores que a esperança e o impulso de virar as páginas.

Tudo isso não tem, no entanto, o sentido de não sofrer ausências ou não chorar por excesso de coragem. Coragem demais também maltrata. Então, sinto, sofro e choro porque ”sem uivar ninguém encontra sua matilha.” Mas não deixo que as angústias sejam apenas um peso do qual não consigo me livrar, carrego-as como cicatrizes de guerra, mas penso que no seu lugar nasceu outra pele e, em nova pele, me encho de esperança, verde e tenra como um ramo.
Ainda guardo a salvo a minha esperança. Deve haver um motivo para esses movimentos de maré da vida que vêm e vão, dão e recolhem. Tudo que sei é que em alguns momentos contemplo meu vazio como um tesouro, ou melhor, a caixa do tesouro, pronta a receber novas pedras raras.
Apesar de tudo, nunca duvidei do ouro da vida que me deu e me dá tantos “presentes” quando recolho o passado ou o jogo em águas claras. Isso é o que se chama magia do tempo.
Feliz Ano Novo a todos os que deixaram suas caixas abertas e também aos que as fecharam por engano.


