Imagem ilustrativa da imagem Cony, herói da minha resistência
| Foto: Ilustração: Marco Jacobsen



Às vezes penso nas pessoas que deixei de conhecer e já se foram. Uma delas foi Carlos Heitor Cony, a quem ia solicitar uma entrevista no início de 2013, na fase final da minha dissertação de mestrado sobre a obra de Maura Lopes Cançado, escritora que viveu num manicômio do Rio, onde escreveu o emblemático "Hospício é Deus", e também publicou contos, no início dos anos 1960, no Jornal do Brasil. Cony e Maura eram contemporâneos, ele numa carreira sólida num dos maiores jornais do País, ela colaborando na seção literária do mesmo periódico, editada por Ferreira Gullar.

Não procurei Cony nem Gullar. Depois de ler o que eles haviam dito sobre Maura em várias entrevistas, pensei que choveria no molhado, mas não resta dúvida que as fontes valeriam não só pelas informações, mas pelo contato. A desistência redundou em outras buscas, de forma que também consegui um pouco de originalidade.

Cony, que faleceu no último dia 5, aos 91 anos, é uma dessas entidades da literatura brasileira que deixam um rastro diverso da mesmice que pensei estar inscrita num depoimento repetido. Na verdade, ele era diferente de muitos contemporâneos, na literatura e na vida. Só começou a falar aos cinco anos, talvez o atraso tenha lhe valido depois a carreira de escritor. Desde que começou a criar enredos não parou mais, sua literatura tem a marca do insólito.

Seu primeiro livro "O Ventre" (Civilização Brasileira/1958) foi considerado muito rude por críticos experientes como Carlos Drummond de Andrade. O livro começava com a frase: "Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe". Pensando na frase, acho que ele só considerava viável a realidade, mas foi um mestre da ficção. Cumpria assim o destino do menino que não falava, mas conseguiu se expressar como poucos.

A frase inicial de seu primeiro livro, que perturbou Drummond, foi vista como rude num período no qual a literatura brasileira já desbravava a linguagem moderna: Guimarães Rosa lançou "Grande Sertão: Veredas" em 1956; Fernando Sabino publicou "Encontro Marcado" em 1956 e Jorge Amado revelou "Gabriela" em 1958. Só por isso, percebe-se que Cony não era fácil, antes de tudo, era original.

A expressão diferente marcou também a opinião política de Cony que atirava à direita e à esquerda. Não tinha papas na língua, o que lhe valeu algumas inimizades, críticas aos montes e também o respeito que só conseguem os independentes que não se curvam a panelas, fazendo o julgamento das coisas pelo que são, não pela ideologia que não se sustenta na prática.

Coerente em sua trajetória, ele não traçou em linhas retas, mas curvas criativas que abarcam todo o pensamento contemporâneo em romances que lhe valeram os prêmios mais importantes do País, além de artigos e até uma incursão pela teledramaturgia - através de uma novela que foi censurada na TV Rio em 1960. Cony escolheu suas lutas não por cumplicidade cega, mas pela liberdade de pensar e escrever sobre tudo sem tutelas. Gosto de quem banca os seus próprios riscos. Mas o fato de não tê-lo conhecido se soma, na minha galeria de mancadas, à que me impediu de me aproximar do dramaturgo Plínio Marcos, numa visita a Londrina, em 1998. Estávamos eu e ele sozinhos no mesmo bar, mas ao ver aquela celebridade perdida em seus pensamentos numa noite suja, não tive coragem de abordá-lo. Ele morreu pouco depois, em 1999.
As entidades têm seu espaço de memória em nossas vidas pelo que representam e não só por estarem ao alcance das nossas mãos ou do nosso cuspe no desencanto da realidade. A falta de contato e, mais tarde, a sua ausência, nos deixam espaços de ficção que depois podemos preencher com as memórias e até com a fantasia, como essa que escrevo ao me despedir de Carlos Heitor Cony, um dos heróis da minha resistência.

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