Há sentimentos que não cabem nos parágrafos e para os quais teríamos
que inventar códigos impossíveis

Sobre a fala
  Gosto de lembrar que as mulheres inventaram a fala. Dizem que na pré-história, enquanto os homens iam à caça, elas ficavam nas cavernas com as crianças e, assim, criaram a linguagem que nos diferencia de todas as outras espécies. Como se vê, a eloqüência das mulheres nasceu do mais autêntico tatibitate, do som se descolando do gesto.
  Por isso, senhores, há uma causa antropológica para o fato de utilizarmos cerca de 3 mil palavras para dizer a mesma coisa que vocês diriam com 1.500.
  E a fala nasceu muito antes da escrita, muito antes que qualquer animal fosse desenhado nas grutas de Lascaux, muito antes dos hieróglifos. Acho mesmo que a fala nasceu da tentativa de uma canção de ninar, simples assim, de uma canção de ninar...
Sobre o silêncio
  Nada faz tanto bem a quem escreve quanto o silêncio que antecede as palavras que um dia serão lidas por outra pessoa, também em silêncio. A isto eu chamo ‘‘comunicação de almas’’. Algo que se equipara ao resgate de nossas páginas mais secretas, como uma inusitada arqueologia. Quando a gente menos espera estão ali as nossas piores e as nossas melhores partes. Quem escreve e quem recebe cartas sabe do que estou falando. Mas é preciso que estas cartas também tenham...alma.
Sobre a dor
  Há coisas intraduzíveis, como a angústia dos passos depois da porta, a solidão do pássaro que se perdeu do bando, a despedida sem palavras. Há dores invencíveis, dessas que apenas se acomodam no hiato entre o desejo e a inexplicável negação dos que se distanciam.
  Há mudanças que acontecem sorrateiras, de forma imprevisível, sem que ninguém imagine que a fibra da nossa emoção se rompeu e não dissemos ai.
  Essas situações excluem peças da sensibilidade, transformando o jogo de memórias num exercício de desencanto, embora a gente viva, trabalhe e represente como o herói de uma história sem fim.
  Existe por aí, uma falta de sintonia entre o sonho e a realidade, uma cisão entre o querer e o poder, uma imposição que silencia o mar das palavras, um vento que corta sílabas. Por tudo isso, meu patchwork de emoções emenda-se nas linhas que rabisco, mas não estou inteira. O que tenho a dizer tornou-se indizível. Não há espaço para a interlocução. O que transparece é apenas um estado de espírito. O sentido de alguém que passa e, no lugar das frases, deixa um perfume.
Sobre os pensamentos
  Às vezes é preciso esperar que a noite termine para que os pensamentos se aquietem. No escuro, eles passam feito cardumes. Ao amanhecer alguns emergem até a superfície para se alimentar, transformando-se em desejos satisfeitos. Outros voltam às profundezas à espera da noite seguinte quando afiam guelras, escamas, lâminas, movimentando-se num balé líquido nas minhas marés imateriais. Tenho alguns desejos satisfeitos. Outros submersos em reinos que ninguém adivinha...
Sobre a emoção
  Quero falar chinês, javanês, árabe, gaulês, português arcaico, todas as línguas vivas e mortas. Encontrar vocabulários não é para qualquer um, há pulsações. Preciso de um exercício dadaísta para descobrir sentidos obscuros. Quero todas as estéticas e as linguagens , a poesia e a prosa, o sentido arrancado à força dos esconderijos para compreender, afinal, o que vai dentro de mim, já que não posso decifrar o outro.
  Há sentimentos maiores que as frases e as sílabas, há sentimentos que não cabem em parágrafos, há sentimentos que extrapolam as letras, corrompem vírgulas, atropelam pontos. Há sentimentos para os quais teríamos que inventar códigos impossíveis. Destes que riem e choram. Seu peso viola a lógica da contenção e do transbordamento. Sinto-me tão ocidental quando tento me exprimir com palavras, que rio de mim como se fosse um cão a perseguir o próprio rabo quando ele gira a dança dos dervixes. Sentir é um transe. É diferente de decifrar emoções em código e repetir: amor âmago amordaçado ausente antigo antagônico êxtase errante eletricidade erótica coruscante cristal cravo desejo ardente cítara sutil afresco hiato incandescente sem saída
  Sentir é como ver o mar e uma entidade pungente naquela engenhosidade líquida. Impraticável mecânica. Ninguém consegue tocá-la, parar seu movimento, quem dirá... dizê-la. Querem saber? O sentimento é como o mar que nos lambe e devora, como a língua de um grande deus insondável e quântico.

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