CÉLIA MUSILLI -

Censura, a velha senhora


 No fim do século 19, o livro Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, levou seu autor ao banco dos réus sob a alegação de que a obra feria os “valores tradicionais." A censura não impediu que os franceses lessem o livro às escondidas, conhecendo uma história de adultério que, na verdade, não descrevia nada mais do que aquilo que os “valores” condenavam, mas a prática absolvia. A França, há séculos, conhecia as histórias de adultério reais, não as fictícias. Na corte dos Luíses não havia um nobre – homem ou mulher - que não tivesse um amante, comportamento considerado até mesmo como uma condição de prestígio, embora muitos não aprovassem a conduta. 

  

O episódio envolvendo a HQ “Vingadores, a Cruzada das Crianças”, de Allan Heinberg, com desenhos de Jim Cheung, que sofreu uma tentativa de censura por parte do prefeito  Marcelo Crivella na Bienal  Internacional do  Livro do Rio, por causa da cena de um beijo gay, remete ao comportamento ambivalente da sociedade em vários momentos em que publicações foram proibidas por motivos morais, religiosos ou políticos.   



  

A ambivalência se refere ao fato de parcelas da sociedade condenarem na ficção o que já se consuma na realidade: do adultério a homossexualidade. No mundo contemporâneo, seja na arte, nos esportes, na educação ou na política, as bandeiras LGBTs são deflagradas como luta natural pelos direitos civis. Não será ocultando uma HQ das crianças e adolescentes que o tema deixará de circular por um motivo muito simples: a sexualidade, em sua manifestação hetero, homo ou trans, faz parte da vida.   

  

Já faz alguns anos que os jovens têm contato com comportamentos sexuais diversificados, encarando relacionamentos, que podem ser tabu para seus pais ou avós, como algo que faz parte do leque de afetividades. Na vida social, nas escolas, na própria família a convivência com pessoas que assumem sua homossexualidade é cada vez mais comum. Não há grupo que não tenha um filho, sobrinho, tia ou amigo gay e quanto maior for o entendimento de que isso não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma condição a ser aceita, melhor para todos os envolvidos. A vida sexual de cada um não é ponto para julgamentos, mas para respeito às diferenças e aceitação da diversidade que sempre existiu no mundo.  


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. | Marco Jacobsen
 

  

Não será boicotando livros que autoridades revestidas de preconceito vão impedir que as pessoas assumam e manifestem sua sexualidade: jovens casais, heteros ou homos, estão em todas as partes passeando de mãos, se beijando em público, marcando um espaço afetivo que décadas atrás era  reservado a quatro paredes. Mas o mundo mudou, se tornando mais autêntico. 

  

Na história, a proibição de 'livros perigosos” sempre funcionou como um atrativo a mais para leitores curiosos ou interessados nos temas abordados. O que não significa que todos vão imitar os personagens, receio primário que sustenta a censura sempre que uma obra parece desafiar os costumes: “O que as crianças vão ler? O que vão pensar? O que vão sentir?” Perguntam ecoando seus  fantasmas. Mas, em última instância, as escolhas literárias cabem aos pais e filhos, não às autoridades. 

  

As mulheres não se tornaram mais ou menos adúlteras porque leram “Madame Bovary”; os meninos não se transformaram em bruxos porque leram Harry Potter;  os casais não aderiram ao BDSM - sigla de Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo – porque leram “50 Tons de Cinza.”  


Autores como René Descartes, Thomas Hobbes e Victor Hugo já fizeram parte do Index Librorum Prohibitorum – lista de livros proibidos pela Igreja na Idade Média –  o que não impediu que suas ideias atravessassem séculos, chegando até nós numa demonstração de que o pensamento voa, até mesmo quando tentam convertê-lo em cinzas. O Index foi abolido pelo Vaticano em 1966 e lá se vão mais de 50 anos. 


Há livros que foram censurados no passado e que hoje figuram entre os mais influentes da História, como “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, ou “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Eles foram publicados num tempo em que a obra impressa era o principal meio de divulgação das ideias em massa. Hoje, num mundo em que as informações voam na velocidade da internet, querer proibir livros chega a ser um paradoxo que se assemelha a por o dedo na torneira para controlar a correnteza do rio. A suspeita é que algumas “autoridades” ainda tirem água do poço. 

 


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