Depois de dominar guerrilhas, desmontar as cenas e passar a limpo as vivências interiores, refaço o afeto como um quarto de poucos móveis, nenhuma quinquilharia, sem tapetes ou quadros a inspirar lembranças. No chão apenas um tatame e um futton vermelho a indicar que esta paixão é zen, sem a obstrução dos excessos. Nada de vidros, candelabros ou abajures. Dispenso leques e biombos, cortinas pesadas como os mistérios, porta-retratos em que imagens se desdobram em braços, pernas, paisagens, pessoas iluminadas ou na penumbra, sorrisos forçados, animais empalhados, expressões estanques.
  Há um corredor muito simples, de portas que mantenho fechadas por falta de interesse, e esta única passagem que se abre para o presente, em conexão com a janela ampla e arejada, para que se sintam os fluxos das emoções que entram e saem, livres da necessidade de serem reunidas entre quatro paredes. A porta também não tem chaves, embora seja íntimo o ambiente e poucos se atrevam a entrar.
  Neste aposento há um jogo de espelhos que permite a visão de outros mundos, passagens para a Índia de onde nos contemplam os amores tântricos. Isto mesmo, por enquanto não me toque. Apenas me deseje como se o olhar percorresse cada poro, e as carícias fossem um véu suave que cai escorregando nos sentidos.
  Há poucos elementos neste quarto. Mas todos respiram. Um antúrio é a flor escolhida para ficar à contraluz, com silhueta elegante e sem espinhos. Apenas uma pétala vermelha a enrolar-se sobre si mesma, como serpente acetinada, cravada por uma espécie de haste amarela. Espádice, diriam os botânicos, acrescentando que o antúrio é uma ‘‘inflorescência’’. Mas não quero explicações. Nem suas nem dos botânicos. Deixo a flor ali como testemunha, capaz de durar até 60 dias, tempo suficiente para se viver um amor.
  Em vez de quadros, há um enorme pôster fotográfico com um close da minha boca. Sempre achei que bocas se parecem barcos e deixo-a ali navegando na parede branca, porque o branco é zen, assim como o vermelho e os poucos detalhes em preto que utilizo para criar contrastes, porque contraste é vida. Já tive amores rosa chá. Mas esta paixão é inteira como as maçãs, colhidas num fim de tarde ou na manhã azulada, quando abrimos a janela para respirar, enquanto deixamos suspiros entre o futton e o tatame. Sussurros tomam o lugar de uma canção exótica, assobiada por um marinheiro que passa rente à casa, nos advertindo do movimento do mundo.
  Mas qual o quê. Quem quer saber do mundo no espaço tântrico de um quarto zen? Vejo o antúrio à contraluz e digo que quem pensa nele como um solitário se engana. No enquadramento da janela, ele se comunica com as flores brancas que se concentram em cachos na varanda. Uma abelha beija o néctar e sai voando como meu pensamento, transportado em nuvens que se desmancham. Algodão e rabiscos. Caprichos e mosaicos. Entre nós o êxtase, não se esqueça, só o êxtase....
E assim, me despeço sem alardes. Beijos

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