Em 2009 vou pegar leve e quem tiver a disposição da entrega será meu honroso convidado


Hoje vim para dizer que, em 2009, não quero as meias-verdades, as meias palavras, os meios sentimentos. Quero a redondeza da Terra, o caminho com começo, meio e fim, o salto com impulso, velocidade e alvo.
Com a voracidade definida, o querer afiado, não desejo mais as fatias, mas o bolo inteiro, com glacê, calda e cereja. O abraço pleno com direito a mergulhar no outro. O passeio com sol e sorvete, a atmosfera leve como as manhãs da infância. Porque na infância, antes que nos contaminem a liberdade, temos noção desta inteireza que a maturidade nos rouba, porque o adulto é um craque em escamotear a si mesmo, dissimular emoções, conter o choro, medir o riso, evitar os ''excessos'', neutralizar instintos, viver o possível.
Então, vim para dizer que querer demais faz bem. Que aquele que só se doa pela metade, no fundo, não dá nada de si, não pega a estrada com a gana do aventureiro, do cigano que não tem terra a perder, do nômade que não se fixa porque tem horizontes.
Em 2009, tomo a decisão inusitada de não conferir as previsões e dispenso a consulta aos oráculos para saber que ''vamos ter uma melhora no segundo semestre. Mas até lá, teremos que usar muita criatividade para nos manter''.
Dispenso os tarólogos e os numerólogos que falam como políticos ou economistas porque, para certas profecias, não é preciso fazer cálculos nem ter um sexto sentido aguçado, bastam cinco.
Mas confesso que é divertido saber a opinião do astrólogo Oscar Quiroga, que prefere não opinar sobre a popularidade de Lula no ano que se inicia. Ele afirma, com convicção, que o mapa astral do presidente foi inventado pelo publicitário Duda Mendonça, um ''expert'' na criação de lideranças ungidas pelo destino.
Na cena local, também me abstenho de adivinhações e não faço apostas, mantendo apenas a curiosidade que não quer calar: Alguém aí pode me dizer quem será o prefeito de Londrina? Questão intrincada que demandaria um congresso de magos e videntes, com jogo de cintura para sair-se bem em caso de erro, professando: ''Vocês sabem como são nebulosas as conjunções astrais''.
Mas em 2009 vou pegar leve e quem tiver a disposição da entrega será meu honroso convidado. Mais pelo humor do que pela política, mais pela poesia do que pela religião, a vida se consagra na dança dos desejos e realizações singelas, que não dependem das grandes conjunturas nem de filosofias complexas.
Quem quiser pode vir ao banquete, comer e beber, servir-se do pomar de doces frutos, no ponto de serem apanhados sem risco de amargar a língua, sem risco do engodo dos sentimentos verdes, das flores sem pólen, dos favos sem mel. A minha medida é a alegria e quem quiser menos que isso, por favor, saia do caminho, porque a vida não admite conta-gotas nem escorre em filetes. A vida molha, inunda, fertiliza, multiplica. A vida é o mistério da reprodução sem fim. Feliz Ano-Novo!
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