A voz às vezes pode substituir a imagem, a gente apaga a luz e pronto

A voz de Arnaldo Antunes sempre me encantou. Além do timbre diferenciado, personalíssimo, ele canta fazendo pausas, num espaçamento que não se parece com nenhum outro. E rouco daquele jeito, me arrebata.

Lembro-me que a geração da minha mãe apaixonava-se pelos cantores do rádio ou pelos locutores que podiam ser feios e mirrados, mas quando soltavam a voz nos microfones cresciam como ídolos sonoros, transformavam-se em galãs invisíveis. A minha idéia é que o som às vezes pode substituir a imagem, a gente apaga a luz e pronto.

Imagino a voz poderosa de Orson Welles aterrorizando os americanos com a ''transmissão ao vivo'' da invasão dos ETs na Quinta Avenida. Poder da voz associado ao poder do rádio, veículo, por excelência, das modulações e nuances deste atributo que pode nos encantar ou repelir.

Minha mãe falava de Vicente Leporace, um crítico corrosivo, apresentando o programa ''O Trabuco'' na Rádio Bandeirantes. Falava de Francisco Alves, o ''Rei da Voz'' e de Omar Cardoso, astrólogo e primeiro esotérico famoso do rádio brasileiro, para mim o autêntico criador das teorias de ''O Segredo'', manual de auto-ajuda fajuto que anda vendendo feito água e repete, de forma até irritante, o que o astrólogo já usava como bordão nos anos 60: ''Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor''. Sempre de forma segura e confiante.

Lembro-me de meu pai para quem o radialista Alberto Cury era o porta-voz das notícias de mau agouro, o urubu das ondas médias e curtas. Foi ele quem leu no rádio o AI-5. Meu pai também falava de Ary Barroso - sim , ele mesmo -, inconfundível na narração de um gooooollll!!!

Eu me lembro de Big Boy, um dos DJs mais famosos dos anos 70, um craque nas vinhetas e performances que mandava bem na Rádio Mundial anunciando: ''Hello crazy people, aqui fala Big Boyyyyy!!!!''

E o que dizer dos poetas? De Vinícius de Moraes com sua voz pequena, lendo o ''Soneto de Separação'' que, para mim, tem o efeito de um ópio sonoro, me elevando aos nirvanas. O que dizer da BBC de Londres sem o locutor John Peel - um ''imortal'' que ficou na emissora durante décadas, até morrer. E o que seria da Pequena Londres sem a voz de Zezão na Paiquerê e de Fernanda Jiran na Rádio Universidade? Pessoas e vozes inconfundíveis. O poder da fala na acepção da palavra.

Se duvidam deste poder, conversem com um homem feio ao telefone, mas de voz potente e linda. A gente dá a ele a cara que quiser e prefere nem se encontrar com o dito cujo, só para manter aquele efeito sonoro. E o contrário? Bem, o contrário é de lascar, quando o homem é lindo mas fala fino ou alto, com timbre irritante, mandão. Acho que o mesmo vale para mulheres bonitas, de vozes estridentes ou desgraçadamente esganiçadas, sem modulações, sem charme, sem sutilezas, sem calor.

Lembro-me de um amigo de voz poderosa que adorava namorar ao celular e descolou tantas mulheres, só no papo, que eu brincava com ele dizendo que era uma ''sereia de calças'', aquele que atraía as mulheres pelo ''canto''. Elas se atiravam pra ele sem nem mesmo conferir atrás do que estavam mergulhando. Ele ria e dizia: ''Cada um usa o que tem...'' E voz, ah! voz, ele tinha, para seduzir quem quisesse.

Para compreenderem o que estou dizendo, ouçam Arnaldo Antunes cantando ''2 Perdidos Numa Noite Suja'' e depois me digam se não dá pra se enganar, se encantar, se afogar por ele, ainda que seja um ET ronronando em nossos ouvidos.

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