Meus parentes dispensavam formalidades e viviam como gente que tem um coração no peito

  A infância volta à memória. Álbum de fotos sem papel, feitas da matéria que não se pega e não se vê, a não ser com os olhos interiores que nunca se fecharam. Varanda e cadeiras, a família reunida com a preguiça típica dos sábados em que se espera o domingo, em que se espera a segunda, em que espera a semana, em que se espera a vida inteira nas cidades do interior. Eu gostava de olhar as nuvens, ver os desenhos que se ‘‘desdesenhavam’’, figuras tão improváveis quanto as palavras que invento, unicórnios desconstruídos, Pégaso sem asas, trotando na tarde em que as nuvens eram também carneiros banidos do sono.
  A noitinha era a hora melancólica. O cheiro da comida assinalava que o dia terminava e nossa vivência em família cumpria mais uma etapa.
  Há lições felizes, como o fato do meu pai ler tudo o que lhe caía nas mãos, as histórias que contava sobre os hábitos da família calabresa, o gosto em amassar aliche com azeite fazendo com que o sabor e o aroma do alimento nos transportassem a outras trilhas geográficas. Eu gostava de ouvir a história do tio-avô que deixou a Itália em menos de duas horas, embarcando clandestinamente num navio para a Inglaterra, depois de desacatar a polícia de Mussolini.
  Episódios assim resultaram num sentido anárquico de política e vida, freqüente nos discursos improvisados de meu pai que ecoam como histórias a serem repetidas. Eu o ouvia sem me cansar, como se fosse também protagonista dos fatos, experimentando perigo e poesia, avanços e recuos, fugas e chegadas. Meus parentes dispensavam as formalidades e viviam como gente que tem um coração no peito. Não por acaso, alinho palavras, tentando reter memórias que considero únicas.
  Minhas lembranças são mais que papel amarelo e fotogramas desbotados. Há climas de festa, de alegrias de Páscoa, animais de estimação, tentativas desastradas de andar de bicicleta, piqueniques em morros nos arredores da cidade onde eu coletava pedras que eram para mim a prova viva da aventura. Com o passar dos anos, minha coleção de pedras derivou para outras coleções e eu me transformaria, quase sem perceber, na guardiã das lembranças da família. A que herdou o relógio de parede, o passaporte do avô, as cartas de amor trocadas entre meu pai e minha mãe, as fitas que se desprenderam de um vestido, como se os objetos carregassem uma fração da vida que se perde ou se transforma.
  Também aprendi a ser dona do meu nariz e pus os pés na estrada bem cedo, construindo uma emancipação que me foi destinada como a meta de quem cresce. Fazendo as contas, vejo que ganhei batalhas ou, pelo menos, nunca tive medo de ir à guerra. Tenho assim um coração de pétalas ligado a uma alma de fibras muito fortes que não se esgarçam com facilidade, embora, como tantas pessoas, eu não consiga me safar da dor. Pensando nisso, vejo que a força resoluta que adquiri naqueles anos de construção da coragem me faz ir em frente mesmo quando os caminhos se fecham.
  Mas há dias em que confesso que sinto um cansaço insuperável, de tanto chegar e partir, contando carneiros nas nuvens, unicórnios desconstruídos, Pégaso sem asas. Sinto um cansaço que chega a interferir no meu desejo de criar palavras para tratar da alegria e da dor pelos quais somos todos possuídos e confesso, pai, que talvez fosse mais fácil fazer parte do time dos que têm medo da vida. Ou, pelo menos, ser como um daqueles que não tentam decifrá-la.

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