CELIA MUSILLI
Você nem sequer me conhece, mas veio me dizer que meus versos sofrem de um derramamento. São inebriantes demais, macios demais, excessivamente femininos. Diz que frequentou a Academia e fez cursos que o ensinaram que o bom poema é sóbrio, comedido, contido, como se carregasse uma espécie de ''complexo de João Cabral de Melo Neto'', ainda que nem todos que se esforcem tenham seu talento.
Sabe Jorge, eu não consigo entender muito bem estes poetas sóbrios, estes que não bebem, não sonham nem recendem a éter. E estou falando aqui do delírio em estado puro, com ou sem copo. Porque a poesia para mim é uma força com boa dose de fraqueza, um jeito enviesado de entender o mundo, um modo irreverente de às vezes ir ter com Deus e perguntar: ''E daí?''
Eu leio Drummond que se inebria com as cenas simples:''O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.''
Eu leio Vinícius e sua sofrida Dialética:
''É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste''
Eu compreendo estes estados de espírito. Então Jorge, também sou passional, minha veia poética é latina, minhas angústias e prazeres evidentes. Costumo sair por aí beijando as tempestades e transo com a solidão para procriá-la em versos que não carregam atestado de ''bom comportamento''.
Minha poesia tem um derramamento de feitiçaria, um excesso de vitalidade, flerta com o proibido, compactua com o insondável, sonha, me compromete com o pecado de estar viva, porque no dia em que morrer aí sim, vou ficar sóbria como um defunto.
Por ora, meus versos báquicos vão falar de guerrilhas internas, de gozos e raivas que destilo como um licor particular e, quem quiser, que se embebede comigo.
Aos vivos deixo o banquete. Aos sóbrios, a ressaca da ausência e as aspirinas que são para não sentir dor....nem o prazer de derramar-se como uma cascata de palavras avessas à sintaxe.
Então, aprenda Jorge: minha poesia é como um pássaro, tem asas.
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