CÉLIA MUSILLI
Quem disse que homem é discreto? Conversa, não é Adriana?
Dizem por aí que o homem é o bicho mais discreto do planeta, não é dado a contar aos amigos suas conquistas amorosas e nunca, ou quase nunca, abre a boca sobre sua vida íntima. Já as mulheres, vocês sabem. Dizem que somos fofoqueiras, linguarudas e uma porção de outros adjetivos que nem é bom lembrar.
Mas outro dia vi a famosa discrição masculina cair por terra e achei bem divertido observar dois homens na maior fofoca. Era de manhã e fui tomar um suco num daqueles quiosques do centro. Os rapazes, que não deviam ter mais que 20 anos, falavam de uma amiga em comum, uma mocinha que chama a atenção por dois motivos: é muito bonita e tem fama de durona, dessas que não dão mole pra marmanjo. Um dos rapazes até aventava a possibilidade da moça ter algum problema psicológico e chegou a falar em depressão como se fosse um expert no assunto. Como boa ouvinte, e discreta, fiquei por ali sem dar bandeira do meu interesse. Percebi que estava diante de um fato corriqueiro que daria uma boa crônica sobre o folclórico comportamento masculino. Acham que dá pra perder uma história destas?
Um dos moços estava do lado de dentro do balcão, o outro fora. O primeiro preparava sucos para a freguesia, o outro, encostado ali, só queria conversar e os dois não paravam de falar, enquanto copos de limonadas, laranjadas e misturas exóticas eram servidos. Entre o troco e um muito obrigado eles retomavam o diálogo que merece ser reproduzido porque, às vezes, eu me finjo de morta e rio por dentro só pra depois jogar conversa fora.
- Você conhece a Adriana, né?
- Conheço, quando ela namorava o Paulinho me odiava, depois que terminaram ficou minha amigona.
- Tive um rolo com ela.
- É mesmo? (E ele disfarça a curiosidade).
- É, na verdade a gente ficou se encontrando uns seis meses, mas só fiquei com ela pra valer uma vez.
- Ela é difícil.
-Vixe! Põe dificuldade nisso. Uma vez, ficamos da meia-noite às 4 da madruga só conversando e não rolou nenhum beijinho.
- Ela é meio esquisita.
- Mas é bonita pra caramba.
- Nem me fale, é estilosa, quando chega, arrasa.
- Então, eu fiquei com ela uma vez, mas depois pensei: Eu sou um carinha tranqüilo, porque vou arrumar um problema destes? Eu quero é solução.
- Mas foi legal ficar com ela?
- Nossa, me lembro até hoje. Era feriado, numa sexta-feira, ela me ligou e disse:Olha, se quiser me encontrar podemos marcar pras cinco horas.
- E você?
- Fiquei de encontrar com ela perto da AABB.
- E foram pra onde?
- Ficamos conversando horas dentro do carro e rolou no carro mesmo, mais tarde.
- E aí?
- Rapaz, nem te conto. (E continuava fazendo suco de mamão com laranja).
- Ah! Conta vai!
- Olha, é uma delícia, parece morango.
- Vixe! Já tinha ouvido falar de uva, mas morango. Deve ser bom, hein!
- Mas é esquisita, cara!
- Por quê?
- Na hora H não demonstra nada, não dá nenhum suspirinho.
- Nenhum suspirinho?
- É, nem fecha os olhos. Coisa esquisita.
- Não fecha os olhos?
- Não.
- E você?
- Eu também não (risos).
Alguém pediu suco de caju, outro freguês pagou a conta. Eu demorei a esvaziar o copo de propósito. Acham que ia perder o desfecho?
Despachado mais um freguês, o rapaz do lado de dentro do balcão disparou.
- Sabe o que é? Ela não fechou os olhos e nem eu. Não queria perder nenhum um lance. Um morangão daqueles não aparece todo dia na minha horta (risos).
- Tá certo cara, disse o outro, lambendo os beiços. Quer saber? Me dá um suco de morango aí.
- Pode deixar, no capricho, mas vê se não fica influenciado. A mulher é bonita mas é problemática.
- Ué, você queria o quê? Mulher bonita e, ainda por cima, boa da cabeça?
- Pois é, depois disso eu nunca mais vi a Adriana. Parei de ligar, de mandar mensagem. Ainda tenho juízo, mas que morango! Falando nisso, você quer suco com ou sem gelo?
- Sei lá, Fernando, sei lá. Acho que morango é bom de qualquer jeito.
- Tudo bem, Zé, mas vê se pára de revirar os olhos que eu não sou a Adriana.
- Claro, velho, quer saber? Troca este suco de morango por limão galego que eu não quero ficar influenciado (risos).
Paguei a conta e saí de fininho, mastigando o canudinho. Quem disse que homem é discreto? Conversa, né Adriana? E com um cara destes tem mesmo é que abrir os olhos.
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