Já perdi a conta de tudo o que escrevi desde que descobri o lápis

Sobre as fotografias
O que pensamos no momento exato das fotografias? Muitas vezes em nada. É um átimo, um segundo, em que o click desativa todo nosso pensamento e nos concentramos na expressão que ficará como um documento sujeito aos olhares curiosos de uns, interpretativos de outros, ternos de alguém que, decerto, não olhará apenas de relance, mas se debruçará sobre cada indiferença ou cada traço tentando capturar as identidades que se refugiaram no instante.
Sobre a escrita
É uma sina. As pessoas que pensam demais, escrevem. Elas enlouqueceriam se não transformassem em palavras o que as perturba ou lhes traz a felicidade. Trata-se da alquimia de um ouro muito particular, de minas interiores. A escrita ilumina. O ouro escondido não brilha no escuro. É preciso trazê-lo à luz. E um dia,quase sem perceber, nos descobrimos inteiros, no devido lugar, entre vírgulas, pontos, sentimentos.
Já perdi a conta de tudo o que escrevi desde que descobri o lápis. De vez em quando, revendo meus escritos, surpreendo-me com uma emoção, uma revolução, um cansaço, e percebo que sem a linguagem tudo seria apenas humor passageiro.
Mas existem poemas para recolher minha sensibilidade inteira ou em cacos, palavras que refletem como espelho pedaços da minha alma que, de outro modo, seriam insondáveis. Então eu sinto a felicidade de quem faz a tessitura das palavras. Reconstrução de mim mesma, teia orvalhada de pensamentos, mosaico de cada dia.
Sobre encontros e desencontros
A memória de um abraço nunca será estéril se houver a permissão de deixar correr o que se sente como sangue num fluxo. Mas ainda que não haja este corpo a corpo, e não nos atiremos nessa correnteza de vitalidade, existe, em alguns momentos, um encontro de almas ou como quer que se chame esta porção psíquica que nos faz mergulhar mais profundamente para dentro de nós mesmos, numa lição comovida de auto-conhecimento. Porém, a questão mais enigmática que se apresenta, quando se reprime o desejo, é observar que ele resiste ao tempo e, mais dia, menos dia, volta à memória atestando nossa passagem por caminhos que não atravessamos mas, curiosamente, reconhecemos como a palma das nossas mãos que nunca se tocaram. Isso para mim tem o significado imensurável de um detalhe valioso e absurdamente triste... Nossa maior contradição será sempre o desencontro.
Sobre os sonhos
Sonhos perfilados, sonhos desfolhados, sonhos materializados, sonhos transformados por uma fada chamada Speranza. Algumas vezes sinto vontade de jogar meus sonhos pela janela. Ela os apara e limpa, deixando-os de novo translúcidos, apropriados para o futuro. Esta transparência, bola de cristal que equilibro nos pés, me permite o jogo da existência. Estou sempre viajando para o futuro, ainda que não queira. Trem-bala a correr no cotidiano levando meus passageiros, os nós efêmeros, os vós que se sucedem e se deslocam no espaço.
Os sonhos, geografia insólita. Os sonhos vingam ou morrem. Mesmo os mortos, vez ou outra, visitam-me nas tardes úmidas nas quais me debruço sobre memórias tão nítidas como se fossem presente. Mas não são, são asas. E o que sinto é o movimento do ar no corredor do tempo. Vez ou outra uma porta bate, outra se abre e apresentam-se todos os sonhos. Matéria-prima dos anos que atravesso colhendo frutas , maçãs metafísicas, uvas insustentáveis, néctares, licores. Sinto o gosto dos sonhos, passo sobre eles a língua. Suor e lágrimas, mel e orvalho. Memórias delicadas de circunstâncias que deixei e outras que nem vivi. Sonhos apenas, mas impressos como o chumbo do qual nasciam letras e as palavras virtuais que agora passeiam sem aprisionar-me. Meus sonhos viajam como o astronauta que desafiou a lei sem gravidade, caindo no vácuo como se tivesse o dom de contar estrelas. Meus sonhos são pura irrealidade, a poesia do inverossímil.
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